O Blog entrou em recesso. Volta em 2014. Veja os posts mais lidos do ano:
- Vida desperdiçada: Em meio ao contexto das manifestações, morte de adolescente por policial em São Paulo fica em segundo plano em relação à violência dos protestos.
- Clássico de Rob Walker é publicado no Brasil: Segundo o autor, a disciplina de Relações Internacionais não descreve a prática das relações internacionais, mas a constitui.
- O mágico de Oz e a história política americana: Clássico de Frank Baum está de volta em filme da Disney e novas traduções para o português.
- Editora lança "O Brasil depois da Guerra Fria" na versão eBook: Obra está disponível para download no site da Livraria Cultura.
- Cidadania na era digital: Relatório divulgado pelo Pew Research Center mostra forte crescimento no uso das redes sociais para a atuação política nos Estados Unidos. Além disso, que a disparidade entre mais e menos educados na participação se eleva no ambiente online.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
A experiência do fim
Os 50 anos do assassinato de JFK e sua relação com a história.
Se há um Winston Churchill na história política norte-americana, este é John F. Kennedy. Não que ele tenha sido o melhor orador entre os presidentes dos Estados Unidos. Um embate com Abraham Lincoln seria, muito provavelmente, desvantajoso a JFK. De qualquer forma, algumas semelhanças aproximam Kennedy de Churchill, certamente dois dos políticos mais importantes do século XX.
Como Churchill, Kennedy quebrou tradições. Se o ex-primeiro-ministro atacou as regalias da aristocracia britânica, JFK foi, na história, o segundo candidato católico a presidente dos Estados Unidos e o primeiro a ser eleito, numa nação de ampla maioria protestante. Kennedy também enfrentou o velho racismo do Sul – depois de muita pressão, é verdade – e foi o presidente eleito mais jovem da história norte-americana, aos 43 anos, quase 27 anos mais moço que o seu antecessor, Dwight Eisenhower, quando este deixou o cargo. É verdade que Theodore Roosevelt chegou à Casa Branca mais novo que Kennedy, aos 42 anos, mas Ted, como era conhecido, não foi eleito presidente, mas vice-presidente e tomou posse depois do assassinato de William McKinley, em 14 de setembro de 1901.
Como Churchill, Kennedy tinha pretensões literárias e era adepto da historiografia amadora. O norte-americano não alçou vôos tão altos quanto o britânico, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1953, mas JFK foi agraciado com a principal comenda literária dos Estados Unidos, o prêmio Pulitzer, em 1957, com o livro Profiles in Courage. Não à toa, ele escreveu um compêndio sobre a coragem de certos políticos norte-americanos do passado, que enfrentaram o senso comum e mudaram seu tempo com propostas inovadoras.
Como Churchill, Kennedy foi a encarnação política do espírito de liderança. Os discursos de JFK, por exemplo, publicados pela Zahar, com contextualização histórica do professor Robert Dallek e de Terry Golway, são fonte preciosa de uma época em que o mundo esteve à beira do precipício. (Dallek talvez seja o principal historiador vivo da Presidência americana, autor também do sensacional Nixon e Kissinger: Parceiros no poder, que conta a novela da relação desses dois personagens, brincando de deuses na Terra durante a Guerra Fria.)
Afinal, durante o curto mandato de Kennedy, Estados Unidos e União Soviética estiveram envolvidos direta ou indiretamente na invasão frustrada de exilados cubanos treinados pela CIA à Baía dos Porcos, na Crise de Berlim e na perigosíssima Crise dos Mísseis. Nesse conturbado contexto, é difícil saber quem veio primeiro: se os fatos ou o presidente. Foi a postura agressiva de Kennedy na campanha à Presidência e nos primeiros anos de governo que gerou respostas soviéticas à altura? Ou JFK foi pego pelo destino, tendo que carregar o fardo de uma contenda atrás da outra durante os poucos anos em que esteve na Casa Branca?
Na verdade, Kennedy acendeu o pavio da Guerra Fria. Desde os primeiros momentos de sua campanha, atacou o então presidente Eisenhower supostamente por permitir que os soviéticos tivessem passado à frente dos Estados Unidos tanto na corrida armamentista quanto na espacial, sendo que apenas na segunda isso era verdade.
Apesar de não ter sido o mentor do plano de retirada de Fidel Castro do poder e de não ter envolvido as Forças Armadas norte-americanas na invasão da Baía dos Porcos, JFK estava ciente do fato e deu luz verde à operação comandada pela CIA. Para muitos historiadores, a Crise dos Mísseis e o quase desastre ocorrido na viagem-teste apressada do primeiro submarino nuclear soviético, o K-19 (conhecido como o “fazedor de viúvas”, ou “Hiroshima”, pela Marinha russa, e cuja história foi transformada em filme com Harrison Ford), foram respostas da linha-dura no Kremlin à agressividade de Kennedy, talvez necessária a JFK internamente, para contrapor as questões levantadas por seu catolicismo e sua juventude.
Na verdade, Eisenhower, ou Ike, como era conhecido, deixou a Kennedy uma vantagem significativa na corrida armamentista da Guerra Fria. Mesmo assim, JFK, ao tomar posse, iniciou a produção de 1000 mísseis balísticos intercontinentais, além de 32 submarinos Polaris, com mais 656 mísseis. Moscou, no mesmo momento, não tinha um submarino capaz de lançar mísseis balísticos até o K-19, que podia carregar apenas três. Na mesma época, enquanto os soviéticos tinham 50 bombardeiros que poderiam atacar os Estados Unidos lançando ogivas nucleares sobre o país, os norte-americanos tinham mais de 500, prontos para serem utilizados.
O modelo da Guerra Fria, como se sabe, não comportava tamanho desequilíbrio estratégico. Uma tentativa dos soviéticos de demonstrar poder foi tornar o K-19 operacional rapidamente, o que quase causou um acidente nuclear de proporções catastróficas. Outra foi o envio de mísseis a Cuba, no episódio que acabou conhecido nos EUA como a Crise dos Mísseis (na União Soviética como a Crise do Caribe e, em Cuba, como a Crise de Outubro).
Além disso, a política agressiva de Kennedy diminuiu a margem de negociação de Krushchev a respeito de Berlim, um impasse que vinha sem solução desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pressionado internamente, Krushchev endureceu a posição no encontro de cúpula com Kennedy em Viena, em junho de 1961, quando o K-19 saía para a sua primeira viagem-teste. Sem acordo, a capital alemã foi dividida por um muro.
No entanto, como um personagem shakespeariano capaz de pensar sobre si mesmo e mudar seu comportamento, o Kennedy que atravessou uma sucessão de crises que poderiam ter levado a humanidade ao fim é bastante diferente daquele jovem político que buscava se impor na campanha presidencial e no início do mandato. Em 1963, quando foi assassinado em 22 de novembro, Kennedy buscava ser o porta-voz da esperança e da paz, do entendimento e da compreensão, da auto-reflexão e da justiça.
Seus dois principais discursos desse momento – “Uma visão de paz” e “A crise moral da nação” – apresentam argumentos concretos para uma vida mais justa dentro e fora dos Estados Unidos, sem que isso significasse uma deferência ao sistema comunista. No primeiro pronunciamento, por exemplo, feito em Washington em 10 de junho de 1963, JFK afirmou:
"Alguns dizem que é inútil falar sobre a paz mundial, ou sobre a lei mundial, ou sobre o desarmamento mundial, e será inútil até que os líderes da União Soviética adotem uma atitude mais esclarecida. Eu espero que um dia isso aconteça e acredito que possamos ajudá-los. Mas também acredito que devemos reexaminar nossa própria atitude - como indivíduos e como nação -, pois ela é tão essencial quanto a deles. Todo cidadão que reflita sobre os desesperos da guerra e queira a paz deve começar a olhar para dentro - examinar sua própria atitude em relação às possibilidades da paz, em relação à União Soviética, ao curso da Guerra Fria, à liberdade e à paz aqui neste país".
P.S.: Este texto é uma versão da apresentação que fiz à edição brasileira de "Uma visão de paz: Os melhores discursos de John F. Kennedy", organizado por Robert Dallek e Terry Golway e publicado pela editora Zahar.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Diplomacia presidencial
Observatório Político Sul-Americano analisa a politização da política externa brasileira nos governos FHC, Lula e Dilma.
De autoria da professora Maria Regina Soares de Lima (UERJ), um dos principais nomes do país no campo da política externa brasileira e das relações internacionais, e de Rubens Duarte, que cursa atualmente seu doutorado na Universidade de Birmingham, o Observatório Político Sul-Americano (OPSA) publicou agora em novembro uma interessante análise comparativa da diplomacia dos governos FHC e Lula/Dilma. Mais que apontar diferenças, o texto reforça a ideia de que em regimes democráticos, para o bem ou para o mal, a política externa é sempre politizada, "refletindo as orientações político-ideológicas do governo de turno".
Os autores partem da crítica que é feita à diplomacia dos governos Lula e Dilma, que estaria marcada, segundo a oposição e a "mídia conservadora", por um "viés ideológico". Tal característica, ainda segundo os críticos, se mostraria claramente na "branda reação" à nacionalização da refinaria da Petrobrás na Bolívia por Evo Morales; na entrada da Venezuela no Mercosul; no afastamento do Paraguai; na contratação de médicos cubanos; e no episódio de "'fuga' cinematográfica do senador Roger Molina, asilado na embaixada brasileira".
Além disso, Lima e Duarte ressaltam que muitas vezes um "argumento binário" pauta a crítica à aproximação que a diplomacia Lula, em especial, desenvolveu em relação aos países da América do Sul, África e Ásia. Para os autores, a crítica tem por base a falácia de que, ao enfatizar as relações com o Sul ou com países progressistas na América do Sul, "a política externa petista estaria se afastando dos países do Norte, de tradição democrático-liberal".
Como afirma o texto, esta interpretação da partidarização da política externa revela "um sentimento tecnocrático", calcado na ideia de que haveria um "interesse nacional" objetivo que pudesse ser perseguido sem a influência das orientações político-ideológicas do governo em posse do Executivo, algo sem sentido do ponto de vista epistemológico. Na democracia, escrevem os autores com precisão, "mesmo que os compromissos internacionais assumidos por qualquer governo democrático não devam ser revertidos a cada mudança de governo, sob pena do país perder sua credibilidade face aos parceiros externos, existe sempre alguma latitude para que governos eleitos possam incluir temas de política externa em suas plataformas eleitorais".
Da mesma forma que as orientações estratégicas do governo Lula - que eleva a participação do país nas relações econômicas internacionais e na discussão dos grandes problemas mundiais, "ressaltando os efeitos da 'globalização assimétrica' e a desigualdade entre as nações" -, a política externa do governo FHC também esteve alinhada aos objetivos políticos do partido deste presidente ao priorizar os processos de estabilização econômica e reforma do Estado, a inserção competitiva e a modernização produtiva. Nesse contexto, a diplomacia, como lembram os autores, teve o papel de restaurar a credibilidade econômica e política do país, uma agenda presente no debate político brasileiro pelo menos desde as eleições de 1989 e que se traduziu na adesão do Brasil aos regimes internacionais vigentes de comércio, direitos humanos, meio ambiente, controle nuclear e de tecnologia de mísseis.
Além da democracia, os autores ainda ressaltam a importância da presidencialização da política externa brasileira, que também acaba favorecendo a politização da diplomacia em detrimento da autonomia do Itamaraty. É o que Jeffrey Cason e Timothy Power caracterizam, segundo Lima e Duarte, como o "papel direto e crescente do presidente na política externa". Para os pesquisadores do OPSA, a presidencialização da política externa é resultado não apenas da "centralidade do presidente da República no estabelecimento da agenda política da nação", como do fato de que, em última instância, "os atos de escolha e demissão de seus ministros são de sua estrita competência".
No que diz respeito à polítização da política externo no regime democrático brasileiro e à inadequação da crítica que ressalta o "viés ideológico" da diplomacia Lula e Dilma, o artigo de Maria Regina Soares de Lima e Rubens Duarte soa perfeito. No entanto, o texto parece, de alguma forma, celebrar a estratégia petista em detrimento da atuação tucana no campo, uma interpretação que, ao meu ver, deve vir acompanhada de uma análise histórica contextual. Nesse caso, a pergunta que fica é: sem as ações de estabilização e atualização da agenda implementadas anteriormente teria sido possível o desenvolvimento de uma estratégia mais assertiva de política externa no governo Lula? Dificilmente.
Além disso, a ação estratégica internacional do Brasil durante a Presidência Lula, em especial, pode ser criticada de outras maneiras que não aquela calcada no argumento do "viés ideológico". Ou seja, novamente pergunta-se: talvez não tenham dado os autores importância demais a uma crítica desprovida de qualquer fundamento mínimo de sustentação?
O professor Rob Walker, por exemplo, faz críticas bastante contundentes à política externa de Lula por outros parâmetros, bem mais sofisticados. Segundo ele, como já reproduzido anteriormente neste blog, o conceito de multipolaridade pode ser muito útil, mas não se pensado como no século XIX: "É nesse sentido que deveríamos prestar atenção ao pluralismo. O plural, por si só, não é algo necessariamente positivo. É preciso ter muita atenção sobre como o plural está sendo pensado. Por um lado, pode-se fazer muita coisa interessante com o termo, em prol do entendimento de novas formas de distribuição de poder e da autoridade. Por outro, o discurso predominante sobre o tema reproduz formas muito antigas e perigosas da velha política de poder bismarkiana. Nesse ponto em particular, a contribuição da política externa brasileira para o sistema internacional é, no mínimo, discutível, não parecendo mais que uma imitação da Alemanha de Bismarck".
De autoria da professora Maria Regina Soares de Lima (UERJ), um dos principais nomes do país no campo da política externa brasileira e das relações internacionais, e de Rubens Duarte, que cursa atualmente seu doutorado na Universidade de Birmingham, o Observatório Político Sul-Americano (OPSA) publicou agora em novembro uma interessante análise comparativa da diplomacia dos governos FHC e Lula/Dilma. Mais que apontar diferenças, o texto reforça a ideia de que em regimes democráticos, para o bem ou para o mal, a política externa é sempre politizada, "refletindo as orientações político-ideológicas do governo de turno".
Os autores partem da crítica que é feita à diplomacia dos governos Lula e Dilma, que estaria marcada, segundo a oposição e a "mídia conservadora", por um "viés ideológico". Tal característica, ainda segundo os críticos, se mostraria claramente na "branda reação" à nacionalização da refinaria da Petrobrás na Bolívia por Evo Morales; na entrada da Venezuela no Mercosul; no afastamento do Paraguai; na contratação de médicos cubanos; e no episódio de "'fuga' cinematográfica do senador Roger Molina, asilado na embaixada brasileira".
Além disso, Lima e Duarte ressaltam que muitas vezes um "argumento binário" pauta a crítica à aproximação que a diplomacia Lula, em especial, desenvolveu em relação aos países da América do Sul, África e Ásia. Para os autores, a crítica tem por base a falácia de que, ao enfatizar as relações com o Sul ou com países progressistas na América do Sul, "a política externa petista estaria se afastando dos países do Norte, de tradição democrático-liberal".
Como afirma o texto, esta interpretação da partidarização da política externa revela "um sentimento tecnocrático", calcado na ideia de que haveria um "interesse nacional" objetivo que pudesse ser perseguido sem a influência das orientações político-ideológicas do governo em posse do Executivo, algo sem sentido do ponto de vista epistemológico. Na democracia, escrevem os autores com precisão, "mesmo que os compromissos internacionais assumidos por qualquer governo democrático não devam ser revertidos a cada mudança de governo, sob pena do país perder sua credibilidade face aos parceiros externos, existe sempre alguma latitude para que governos eleitos possam incluir temas de política externa em suas plataformas eleitorais".
Da mesma forma que as orientações estratégicas do governo Lula - que eleva a participação do país nas relações econômicas internacionais e na discussão dos grandes problemas mundiais, "ressaltando os efeitos da 'globalização assimétrica' e a desigualdade entre as nações" -, a política externa do governo FHC também esteve alinhada aos objetivos políticos do partido deste presidente ao priorizar os processos de estabilização econômica e reforma do Estado, a inserção competitiva e a modernização produtiva. Nesse contexto, a diplomacia, como lembram os autores, teve o papel de restaurar a credibilidade econômica e política do país, uma agenda presente no debate político brasileiro pelo menos desde as eleições de 1989 e que se traduziu na adesão do Brasil aos regimes internacionais vigentes de comércio, direitos humanos, meio ambiente, controle nuclear e de tecnologia de mísseis.
Além da democracia, os autores ainda ressaltam a importância da presidencialização da política externa brasileira, que também acaba favorecendo a politização da diplomacia em detrimento da autonomia do Itamaraty. É o que Jeffrey Cason e Timothy Power caracterizam, segundo Lima e Duarte, como o "papel direto e crescente do presidente na política externa". Para os pesquisadores do OPSA, a presidencialização da política externa é resultado não apenas da "centralidade do presidente da República no estabelecimento da agenda política da nação", como do fato de que, em última instância, "os atos de escolha e demissão de seus ministros são de sua estrita competência".
No que diz respeito à polítização da política externo no regime democrático brasileiro e à inadequação da crítica que ressalta o "viés ideológico" da diplomacia Lula e Dilma, o artigo de Maria Regina Soares de Lima e Rubens Duarte soa perfeito. No entanto, o texto parece, de alguma forma, celebrar a estratégia petista em detrimento da atuação tucana no campo, uma interpretação que, ao meu ver, deve vir acompanhada de uma análise histórica contextual. Nesse caso, a pergunta que fica é: sem as ações de estabilização e atualização da agenda implementadas anteriormente teria sido possível o desenvolvimento de uma estratégia mais assertiva de política externa no governo Lula? Dificilmente.
Além disso, a ação estratégica internacional do Brasil durante a Presidência Lula, em especial, pode ser criticada de outras maneiras que não aquela calcada no argumento do "viés ideológico". Ou seja, novamente pergunta-se: talvez não tenham dado os autores importância demais a uma crítica desprovida de qualquer fundamento mínimo de sustentação?
O professor Rob Walker, por exemplo, faz críticas bastante contundentes à política externa de Lula por outros parâmetros, bem mais sofisticados. Segundo ele, como já reproduzido anteriormente neste blog, o conceito de multipolaridade pode ser muito útil, mas não se pensado como no século XIX: "É nesse sentido que deveríamos prestar atenção ao pluralismo. O plural, por si só, não é algo necessariamente positivo. É preciso ter muita atenção sobre como o plural está sendo pensado. Por um lado, pode-se fazer muita coisa interessante com o termo, em prol do entendimento de novas formas de distribuição de poder e da autoridade. Por outro, o discurso predominante sobre o tema reproduz formas muito antigas e perigosas da velha política de poder bismarkiana. Nesse ponto em particular, a contribuição da política externa brasileira para o sistema internacional é, no mínimo, discutível, não parecendo mais que uma imitação da Alemanha de Bismarck".
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
A vida nos "aglomerados subnormais"
Onde TV, geladeira e celular chegam primeiro.
Divulgado no último dia 6, relatório do IBGE sobre as favelas traz à tona um tema político tão antigo quanto importante, a deficiência na provisão de bens públicos em contraposição aos acessos de consumo na sociedade brasileira. Mesmo que as informações sejam específicas desse tipo de comunidade que, por viver na maior parte das vezes ao redor das grandes cidades, ganha características específicas desse entorno, a conclusão dos resultados é a de que, ao menos nas favelas brasileiras, TV e geladeira chegam primeiro que saneamento, hospital, escolas e, muitas vezes, segurança.
Segundo a pesquisa, realizada sobre o ano de 2010, 6 mil favelas abrigavam no Brasil, na época, mais de 3 milhões de residências e mais de 11 milhões de pessoas, a maior parte no Sudeste. Além disso, as cinco maiores regiões metropolitanas brasileiras concentravam quase 60% dos moradores de favelas. Desse total, 18,9% na Grande São Paulo e 14,9% no Rio de Janeiro e entornos, além de Belém, Salvador e Recife.
A pior disparidade apresentada está, por exemplo, na educação. Nas comunidades analisadas, o índice de uso de creche e escola pública é de 90%, mas apenas 1,6% tem ensino superior. Fora das escolas boas, poucos chegam à universidade. Por ironia, às públicas muito menos.
Como no "asfalto", no entanto, mais de 90% dos moradores de favela têm geladeira e televisão. O uso do celular é intenso. Mais de 50% das residências nessas comunidades têm somente o telefone celular, o índice do lado de fora é de 32,8%. Apesar disso, os números sobre "computador" e "computador com acesso a internet" são quase três vezes menores dentro que fora das favelas.
Essas pessoas, com geladeira, televisão e celular, moram no que o IBGE chama de "aglomerados subnormais", ou seja, "assentamentos irregulares conhecidos como favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos e palafitas". Seja onde estiverem, e poderiam ter arrumado um nome melhor, os moradores de tais comunidades teriam por teoria direito a escola, oportunidades iguais, hospital, acesso à justiça, saneamento e segurança, como é devido a todo e qualquer cidadão. Afinal, essas são funções básicas da autoridade política, das quais dependeria sua própria origem e existência. Ou não?
Divulgado no último dia 6, relatório do IBGE sobre as favelas traz à tona um tema político tão antigo quanto importante, a deficiência na provisão de bens públicos em contraposição aos acessos de consumo na sociedade brasileira. Mesmo que as informações sejam específicas desse tipo de comunidade que, por viver na maior parte das vezes ao redor das grandes cidades, ganha características específicas desse entorno, a conclusão dos resultados é a de que, ao menos nas favelas brasileiras, TV e geladeira chegam primeiro que saneamento, hospital, escolas e, muitas vezes, segurança.
Segundo a pesquisa, realizada sobre o ano de 2010, 6 mil favelas abrigavam no Brasil, na época, mais de 3 milhões de residências e mais de 11 milhões de pessoas, a maior parte no Sudeste. Além disso, as cinco maiores regiões metropolitanas brasileiras concentravam quase 60% dos moradores de favelas. Desse total, 18,9% na Grande São Paulo e 14,9% no Rio de Janeiro e entornos, além de Belém, Salvador e Recife.
A pior disparidade apresentada está, por exemplo, na educação. Nas comunidades analisadas, o índice de uso de creche e escola pública é de 90%, mas apenas 1,6% tem ensino superior. Fora das escolas boas, poucos chegam à universidade. Por ironia, às públicas muito menos.
Como no "asfalto", no entanto, mais de 90% dos moradores de favela têm geladeira e televisão. O uso do celular é intenso. Mais de 50% das residências nessas comunidades têm somente o telefone celular, o índice do lado de fora é de 32,8%. Apesar disso, os números sobre "computador" e "computador com acesso a internet" são quase três vezes menores dentro que fora das favelas.
Essas pessoas, com geladeira, televisão e celular, moram no que o IBGE chama de "aglomerados subnormais", ou seja, "assentamentos irregulares conhecidos como favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos e palafitas". Seja onde estiverem, e poderiam ter arrumado um nome melhor, os moradores de tais comunidades teriam por teoria direito a escola, oportunidades iguais, hospital, acesso à justiça, saneamento e segurança, como é devido a todo e qualquer cidadão. Afinal, essas são funções básicas da autoridade política, das quais dependeria sua própria origem e existência. Ou não?
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Vida desperdiçada
Dois eventos violentos interligados ocorridos em São Paulo, o primeiro no domingo (27/10) à noite e o segundo no dia seguinte, praticamente dominaram a cobertura da grande imprensa brasileira na última semana de outubro. O primeiro deles foi a morte do adolescente Douglas Martins Rodrigues, de 17 anos, vítima de um disparo no tórax após uma abordagem da Polícia Militar de São Paulo, na região de Vila Medeiros, Zona Norte da capital. O segundo foi o violento protesto, decorrente do fato, no qual manifestantes fecharam as pistas da Rodovia Fernão Dias, atearam fogo em duas carretas, cinco ônibus e um carro, pelo menos um deles chegou a dirigir um caminhão-tanque na contramão. Em meio ao contexto das seguidas manifestações no país, infelizmente o primeiro ganhou menor atenção que o segundo, pelo menos no discurso midiático.
O Jornal Nacional, por exemplo, abriu sua reportagem sobre o caso na segunda-feira à noite com o texto: "São Paulo voltou a sofrer ataques violentos de vândalos - que incendiaram caminhões e ônibus e bloquearam a rodovia federal que liga a capital paulista a Belo Horizonte". A matéria de 5m23 tratou da morte de Douglas por apenas 1m45, sendo o restante tomado pela violência dos protestos. Na reportagem, apenas o porta voz da PM de São Paulo foi ouvido como representante do estado sobre o caso. Durante a edição do dia, foram feitas várias aparições ao vivo da região em São Paulo, produzidas de um helicóptero, nas quais o termo "vândalos" foi repetido com exaustão.
A Folha, na terça-feira, seguiu mais ou menos o mesmo caminho. Colocou na capa uma foto de um ônibus incendiado e o título: "Protesto contra morte de jovem tem incêndios e saques em SP". Logo em seguida, vinha uma chamada para um artigo publicado pelo jornal: "Ataque a policial deve ser considerado agressão ao Estado", referindo-se ao bárbaro espancamento sofrido pelo coronel Reynaldo Rossi na noite de sexta-feira, 25/10. Abaixo do título do artigo, ainda na capa, a Folha colocou mais uma chamada, sobre Black Blocs presos pela polícia paulista.
No mesmo contexto, a manchete do Globo no dia seguinte à morte de Douglas foi: "Vândalos interditam rodovia e queimam veículos em SP; cerca de 90 pessoas são detidas".
É claro que a violência da manifestação, que pode ter tido participação, segundo se apura, do crime organizado, merece toda a atenção da mídia e da sociedade. No entanto, também parece notório que, em meio à tensão e ao acirramento em torno das seguidas manifestações no país, a gravidade da morte de Douglas ficou, infelizmente, em segundo plano.
Afinal, trata-se da morte de um jovem cidadão por um policial pago pela sociedade para servi-la e protegê-la, fato que se configura como uma total inversão do sentido original-existencial do Estado, calcado na teoria hobbesiana canônica de que abrimos mão da nossa liberdade radical em nome de uma proteção garantida pela autoridade legal. Quando o próprio Estado não somente não garante a segurança mas passa a ser, ele mesmo, fonte de insegurança, os princípios legitimadores da autoridade e do ordenamento social se esfacelam.
Além disso, a morte de Douglas Martins Rodrigues está longe de ser um caso isolado, dado que a polícia brasileira está entre as que mais mata no mundo. Como informa a BBC, os homicídios cometidos por policiais no Brasil, em geral classificados como "resistência seguida de morte" ou "autos de resistência", já foram tema de estudo da ONU, que analisou 11 mil casos entre 2003 e 2009 sob tais rubricas somente no Rio e em São Paulo. Sobre o estudo, o enviado da ONU Philip Alston afirmou, em 2010, ter provas de que boa parte dessas mortes foram na realidade execuções ilegais.
Ainda sobre o mesmo assunto, infelizmente, pouco se comentou que está para ser votado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4471/2012, que estabelece procedimentos para a investigação das mortes e lesões cometidas por agentes do Estado, como policiais, durante o serviço. Hoje, as mortes registradas como “autos de resistência'' ou “resistência seguida de morte'' são raramente investigadas.
A gravidade da morte de Douglas Martins Rodrigues, de apenas 17 anos, por um agente do Estado, poderia ter servido para que a sociedade brasileira pudesse refletir com mais cuidado sobre suas prioridades e o comportamento, a remuneração, a cultura e o treinamento do aparato policial brasileiro. Infelizmente, este não parece ter sido o caso.
Em tempo: O Globo iniciou no domingo 3/11, uma semana após a morte de Douglas, uma série de reportagens sobre a violência policial no país.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Tragédia via controle remoto
Documentos divulgados pelo Washington Post mostram que governo paquistanês apóia ataques de aviões não-tripulados americanos em seu território.
O Washington Post divulgou, no último dia 23 de outubro, documentos que comprovam a ciência e a aprovação do governo do Paquistão aos ataques de aviões não-tripulados americanos (drones) em seu território. A notícia vai de encontro às inúmeras declarações oficiais de Islamabad pedindo o fim das ofensivas, que se tornaram uma ação-chave do governo Obama em sua estratégia contra o terrorismo. Junto ao encontro do presidente americano com o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, ocorrido também no último dia 23, em Washington, a divulgação dos documentos chama a atenção para o trágico e polêmico uso de drones como forma de combate a organizações terroristas na regiâo.
Um relatório da Anistia Internacional, por exemplo, divulgado na véspera do encontro entre Obama e Sharif, condena veementemente o uso de aviões não-tripulados contra possíveis terroristas no Waziristão do Norte, região tribal do noroeste paqustanês que faz fronteira com o Afeganistão. A Anistia conta, por exemplo, a história de Mamana Bibi, de 68 anos, morta em um bombardeio quando colhia vegetais no jardim da sua casa, em outubro de 2012.
Um estudo da ONU vai no mesmo caminho e afirma que os drones americanos já mataram pelo menos 400 civis no local. Outro do Bureau of Investigative Journalism, organização não-governamental britânica, calcula que entre 407 e 926 civis morreram em ataques desse tipo.
Com base nesses e outros números, o estúdio californiano Pitch Interactive produziu um website, ilustrativo da tragédia. Segundo as informações no site, mais de 3 mil pessoas, incluindo 175 crianças, morreram em 372 ataques por controle remoto entre 2004 e 2013 no Paquistão. Nesse contexto, não espanta que, segundo reportagem da Bloomberg, os gastos com aviões não-tripulados podem chegar a quase 90 bilhões de dólares nos próximos 10 anos, com despesa anual atingindo valores superiores aos 10 bilhões de dólares, duas vezes o que é investido hoje por ano no desenvolvimento dessa tecnologia nos Estados Unidos.
Na mesma semana da divulgação pelo Post dos documentos, da visita do premier paquistanês a Washington e do lançamento do relatório da Anistia Internacional, o Huffington Post publicou ainda uma entrevista com um ex-funcionário do Departamento de Estado americano no Iêmen, outro país-alvo dos drones americanos. Segundo a fonte, cada ataque desse tipo no país cria de 40 a 60 novos inimigos dos Estados Unidos na região.
O Washington Post divulgou, no último dia 23 de outubro, documentos que comprovam a ciência e a aprovação do governo do Paquistão aos ataques de aviões não-tripulados americanos (drones) em seu território. A notícia vai de encontro às inúmeras declarações oficiais de Islamabad pedindo o fim das ofensivas, que se tornaram uma ação-chave do governo Obama em sua estratégia contra o terrorismo. Junto ao encontro do presidente americano com o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, ocorrido também no último dia 23, em Washington, a divulgação dos documentos chama a atenção para o trágico e polêmico uso de drones como forma de combate a organizações terroristas na regiâo.
Um relatório da Anistia Internacional, por exemplo, divulgado na véspera do encontro entre Obama e Sharif, condena veementemente o uso de aviões não-tripulados contra possíveis terroristas no Waziristão do Norte, região tribal do noroeste paqustanês que faz fronteira com o Afeganistão. A Anistia conta, por exemplo, a história de Mamana Bibi, de 68 anos, morta em um bombardeio quando colhia vegetais no jardim da sua casa, em outubro de 2012.
Um estudo da ONU vai no mesmo caminho e afirma que os drones americanos já mataram pelo menos 400 civis no local. Outro do Bureau of Investigative Journalism, organização não-governamental britânica, calcula que entre 407 e 926 civis morreram em ataques desse tipo.
Com base nesses e outros números, o estúdio californiano Pitch Interactive produziu um website, ilustrativo da tragédia. Segundo as informações no site, mais de 3 mil pessoas, incluindo 175 crianças, morreram em 372 ataques por controle remoto entre 2004 e 2013 no Paquistão. Nesse contexto, não espanta que, segundo reportagem da Bloomberg, os gastos com aviões não-tripulados podem chegar a quase 90 bilhões de dólares nos próximos 10 anos, com despesa anual atingindo valores superiores aos 10 bilhões de dólares, duas vezes o que é investido hoje por ano no desenvolvimento dessa tecnologia nos Estados Unidos.
Na mesma semana da divulgação pelo Post dos documentos, da visita do premier paquistanês a Washington e do lançamento do relatório da Anistia Internacional, o Huffington Post publicou ainda uma entrevista com um ex-funcionário do Departamento de Estado americano no Iêmen, outro país-alvo dos drones americanos. Segundo a fonte, cada ataque desse tipo no país cria de 40 a 60 novos inimigos dos Estados Unidos na região.
sábado, 19 de outubro de 2013
Democracia digital e cultura política
Simpósio internacional debate internet e participação política cidadã.
A participação política do cidadão é um dos temas mais discutidos entre pesquisadores da chamada democracia digital, e-democracia ou ciberdemocracia, que, resumidamente, trata da análise, do uso e desenho de iniciativas digitais em prol do incremento da política em regimes democráticos. A discussão, por exemplo, esteve muito presente no II Simpósio Internacional Brasil-Alemanha sobre Política e Internet: "Democracia na Era Digital", realizado no Instituto Goethe em Salvador, nos últimos dias 17 e 18 de outubro, promovido pela instituição alemã e o Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD) da Universidade Federal da Bahia (FACOM/UFBA).
O tema ganha ainda mais importância quando pensado a partir de um contexto específico, marcado por fenômenos como a queda no comparecimento às urnas – inclusive onde o voto é obrigatório –, o sentimento de baixa efetividade da cidadania na decisão política, o descolamento entre o sistema político e o cidadão, o desinteresse na política, uma visão muito negativa da política e dos políticos, o baixo capital político da esfera civil, a ausência de soberania popular, a falta de espaços deliberativos, a baixa representatividade no debate público etc.
Não à toa, já são muitas as iniciativas digitais dispostas na rede, com o intuito de "empoderar" o cidadão na política de sua cidade, seu estado, seu país, inclusive de seu planeta, como nos temas do meio ambiente, da energia nuclear ou dos direitos humanos. Tais iniciativas são originadas tanto de governos, como é o caso do Gabinete Digital, no Rio Grande do Sul – experiência referência hoje para projetos semelhantes no mundo todo –, como da própria sociedade civil, como o Votenaweb, que procura aproximar o cidadão brasileiro do que se passa no Congresso Nacional, ou o Avaaz, que serve como plataforma mobilizadora em favor de determinados projetos de lei.
Ao mesmo tempo, no entanto, algumas dúvidas pairam sobre o potencial da comunicação política via internet. Alguns autores, por exemplo, afirmam que a internet não torna ninguém mais politizado, apenas serve de instrumento para aqueles que já são engajados. No mesmo sentido, algumas pesquisas sugerem que as redes sociais favorecem uma reunião daqueles que concordam entre si e que isso pode acabar enclausurando o cidadão em ambientes de baixa contestação. Da mesma forma, alguns críticos temem que a cidadania digital acabe por esvaziar de vez a participação fora da rede e que o cidadão fique restrito ao ativismo do tipo "clique no mouse".
Além disso, há o avanço das empresas e da lógica comercial sobre o terreno, que tem sido levantado como um risco nada desprezível, haja vista o que ocorreu na mídia de massa tradicional. Como se não bastasse, a infraestrutura de cabos, fundamental à comunicação digital, também é dominada por empresas e concentrada nos países mais ricos, em especial entre os Estados Unidos e a Europa, o que por si só já gera um acesso diferenciado à experiência na rede.
A participação política do cidadão é um dos temas mais discutidos entre pesquisadores da chamada democracia digital, e-democracia ou ciberdemocracia, que, resumidamente, trata da análise, do uso e desenho de iniciativas digitais em prol do incremento da política em regimes democráticos. A discussão, por exemplo, esteve muito presente no II Simpósio Internacional Brasil-Alemanha sobre Política e Internet: "Democracia na Era Digital", realizado no Instituto Goethe em Salvador, nos últimos dias 17 e 18 de outubro, promovido pela instituição alemã e o Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD) da Universidade Federal da Bahia (FACOM/UFBA).
O tema ganha ainda mais importância quando pensado a partir de um contexto específico, marcado por fenômenos como a queda no comparecimento às urnas – inclusive onde o voto é obrigatório –, o sentimento de baixa efetividade da cidadania na decisão política, o descolamento entre o sistema político e o cidadão, o desinteresse na política, uma visão muito negativa da política e dos políticos, o baixo capital político da esfera civil, a ausência de soberania popular, a falta de espaços deliberativos, a baixa representatividade no debate público etc.
Não à toa, já são muitas as iniciativas digitais dispostas na rede, com o intuito de "empoderar" o cidadão na política de sua cidade, seu estado, seu país, inclusive de seu planeta, como nos temas do meio ambiente, da energia nuclear ou dos direitos humanos. Tais iniciativas são originadas tanto de governos, como é o caso do Gabinete Digital, no Rio Grande do Sul – experiência referência hoje para projetos semelhantes no mundo todo –, como da própria sociedade civil, como o Votenaweb, que procura aproximar o cidadão brasileiro do que se passa no Congresso Nacional, ou o Avaaz, que serve como plataforma mobilizadora em favor de determinados projetos de lei.
Ao mesmo tempo, no entanto, algumas dúvidas pairam sobre o potencial da comunicação política via internet. Alguns autores, por exemplo, afirmam que a internet não torna ninguém mais politizado, apenas serve de instrumento para aqueles que já são engajados. No mesmo sentido, algumas pesquisas sugerem que as redes sociais favorecem uma reunião daqueles que concordam entre si e que isso pode acabar enclausurando o cidadão em ambientes de baixa contestação. Da mesma forma, alguns críticos temem que a cidadania digital acabe por esvaziar de vez a participação fora da rede e que o cidadão fique restrito ao ativismo do tipo "clique no mouse".
Além disso, há o avanço das empresas e da lógica comercial sobre o terreno, que tem sido levantado como um risco nada desprezível, haja vista o que ocorreu na mídia de massa tradicional. Como se não bastasse, a infraestrutura de cabos, fundamental à comunicação digital, também é dominada por empresas e concentrada nos países mais ricos, em especial entre os Estados Unidos e a Europa, o que por si só já gera um acesso diferenciado à experiência na rede.
Entretanto, apesar dos desafios, a internet traz sem dúvida um potencial de transformação da comunicação política nas democracias contemporâneas em favor de uma cultura mais participativa, em especial com relação aos mais jovens. Afinal, aquele cidadão passivo que cumpre somente o papel de "receptor" das mensagens veiculadas no formato "grade de programação" tende a ficar para trás, no tempo e na história.
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