segunda-feira, 22 de março de 2010

Jimmy Carter responde a Walter Russell Mead

Em cartas enviadas à Foreign Policy, o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter e o assessor de Segurança Nacional do seu governo, Zbigniew Brzezinski, responderam ao artigo de autoria de Walter Russell Mead, "The Carter Syndrome", publicado na edição da revista de janeiro/fevereiro deste ano e comentado aqui neste blog em uma postagem anterior. No artigo, Mead, conhecido especialista em política externa americana, com vários livros publicados sobre o tema (incluindo o excelente Poder, terror, paz e guerra, cuja edição brasileira é da Zahar), apresenta o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, como um jeffersoniano clássico, na mesma linhagem do ex-presidente Jimmy Carter. 

Como escrevi, Mead afirma que os presidentes americanos enxergam o mundo normalmente por meio do pensamento e da prática de quatro grandes políticos da história dos Estados Unidos: Alexander Hamilton, Woodrow Wilson, Thomas Jefferson e Andrew Jackson.

Os hamiltonianos têm por base um caráter mais realista, defendem governos fortes que apoiem os interesses econômicos dos Estados Unidos no ambiente internacional. Wilsonianos gostam de promover a democracia e os direitos humanos no planeta. Jacksonianos são mais belicosos. Como descreveu Mead: "Jacksonians are today´s Fox News watchers. They are populists suspicious of Hamiltonian business links, Wilsonian do-gooding, and Jeffersonian weakness".

Jeffersonianos, como Barack Obama e Jimmy Carter, segundo Walter Russell Mead, não são taxados de fracos pelos jacksonianos à toa, afinal são partidários da vida simples, de governos pequenos, não gostam de máquinas públicas de guerra e intervenções internacionais desnecessárias, são contrários ao exagero de compromissos americanos no mundo e acham que tudo isso corrói e distorce a democracia. Para eles, a melhor política externa dos Estados Unidos é servir de exemplo para outras nações, construindo internamente uma vida social justa, pacífica e livre. Vem daí a ênfase de jeffersonianos nos assuntos internos, como a de Barack Obama sobre a reforma no sistema de saúde dos EUA.

Mas jeffersonianos, segundo Mead, têm muitos problemas para colocar suas visões em prática nos dias de hoje. Em especial três: 1) a real capacidade de desengajamento de Washington dos assuntos internacionais; 2) a tendência a transparecer fraqueza no não-envolvimento; e 3) o forte viés wilsoniano da política americana e, nos casos de Obama e Carter, do Partido Democrata. Para o autor, o grande exemplo da dificuldade de implementar esse tipo de postura está exatamente no governo Carter, muitas vezes considerado indeciso e fraco frente aos desafios internacionais de sua época, ainda na Guerra Fria. Como escreveu: "In recent history, Jeffersonian foreign policy has often faced attacks from all the other school of thoughts. Kissinger´s policy of détente was blasted on the right by conservative Republicans (...) and on the left by human rights democrats (...). Carter faced many of the same problems, and the image of weakness and indecision that helped doom his 1980 run for re-election is a perennial problem for Jeffersonian presidents".

E foi o tom de Walter Russell Mead sobre o governo Carter que incomodou o ex-presidente e seu assessor de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski. Carter lembrou que seu mandato ainda lidava com o problema do equilíbrio estratégico com os soviéticos, com o objetivo de evitar um conflito que trouxesse a destruição total. O ex-presidente afirmou na carta que, para evitar uma "confrontação militar catastrófica", negociou com os soviéticos "em posição de força" o acordo de desarmamento SALT II, com o intuito de restringir e reduzir o arsenal de ambos os países.

Além disso, disse o ex-presidente, seu governo fez análises comparativas constantes das capacidades militares de Estados Unidos e União Soviética, com a participação de Brzezinski e do professor Samuel Huntington, o polêmico autor da tese do "choque de civilizações". Com base nessas análises, Carter contou que decidiu modernizar a capacidade americana de dissuasão/deterrência tendo por base a noção de que Washington estava bem à frente de Moscou no terreno não-militar. A ideia assim foi se aproximar das nações não-alinhadas, promovendo questões como a paz, a liberdade, a democracia e os direitos humanos, melhorando, teoricamente, a imagem dos Estados Unidos em regiões onde os soviéticos eram mais bem vistos.

Como parte dessa mesma estratégia e mesmo sob protestos dos aliados europeus, Carter contou que pressionou a União Soviética com relação ao tratamento dado pelo Kremlin às populações não-soviéticas, como os judeus, por exemplo.

Da mesma forma, Carter lembrou que negociou com os chineses durante um ano sobre a questão de Taiwan e chegou a um acordo em dezembro de 1978, o que proporcionou o estabelecimento de um novo e completo relacionamento dos Estados Unidos com o país asiático.

"This was a strategic turning point in U.S.-China relations that my predecessors had not been willing or able to consummate. As China´s global influence increased, the Soviet Union´s was diminished. This was, perhaps, the most serious challenge to the global status of the Soviet Union. In addition, Moscow´s enormous influence with Arab leaders in the Middle East was severely attenuated by our successful peace efforts", comentou o ex-presidente.

Carter também lembrou do acordo de paz mediado pelo seu governo entre Egito e Israel, o primeiro reconhecimento do Estado israelense por um país árabe. Ressaltou, ainda, sua postura contra os regimes descriminatórios na África, como o apartheid sul-africano, e o comportamento condenatório do seu governo às ditaduras presentes na época em muitas nações, inclusive no Brasil, o que teria produzido uma nova imagem dos Estados Unidos nesses países.

O ex-presidente também chamou a atenção para sua resposta agressiva à invasão soviética do Afeganistão e suas limitações com relação à situação no Irã - a Revolução Islâmica de 1979 é considerada um dos grandes fracassos da política externa de Jimmy Carter. Com uma carta mais resumida, Brzezinski fez uma lista dos mesmos pontos apresentados pelo ex-presidente, que concluiu alertando para o fato de que a ausência de um conflito armado em seu governo não o faz fraco ou indeciso. Dado o momento, muito pelo contrário.

Na tréplica, também publicada pela Foreign Policy, Walter Russell Mead ressaltou que seu artigo não teve como foco a política externa do governo Jimmy Carter. No entanto, reafirmou que suas pesquisas indicam que a política de direitos humanos desse governo foi percebida entre os soviéticos como um retorno das hostilidades e um repúdio à détente, e que Carter, em especial no início do seu governo, teve dificuldades para se posicionar entre o desejo de reforçar a détente e o de promover os direitos humanos. Para Walter Russell Mead, Obama enfrentará desafios semelhantes nas suas relações com nações como o Irã e a China.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A esquerda contra a esquerda no Brasil

As eleições de 2010 vão consolidar o alinhamento político e a estabilidade institucional que estão por trás da prosperidade recente do país

(versão traduzida de artigo em inglês enviado para o site openDemocracy)


Para os brasileiros, os próximos 10 meses serão muito especiais. A Copa do Mundo, em junho, e as eleições para deputados, senadores, governadores e presidente, em outubro, vão ganhar a atenção de todos em 2010. Ainda mais em um momento em que se define o futuro político do país sem Lula – pela primeira vez, desde o fim do regime militar, o presidente não participará de uma eleição democrática para o cargo em Brasília. Além disso, o Brasil tem grandes desafios pela frente e vem chamando a atenção da grande imprensa internacional, tanto pelos seus futuros compromissos internacionais, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, quanto por sua relativa prosperidade econômica e institucional.

Já na corrida do ano, por exemplo, a senadora e candidata à Presidência pelo Partido Verde, Marina Silva, aterrissa no aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro, atrasada para a entrevista marcada com uma rádio nacional. Ela twitta a estação e avisa que está a caminho.

Segundo a senadora, como afirmou à rádio CBN, em 26 de fevereiro, seu esforço de campanha pretende mostrar às pessoas que é preciso "construir uma sinfonia, que todos possam fazer parte dessa orquestra, que vai mudar a forma de produzir, consumir, se relacionar com a natureza". Além disso, a tese da senadora, que fica bastante clara na entrevista, é de que sua campanha representa aqueles que defendem um novo alinhamento político para o Brasil, uma configuração que pudesse quebrar a polaridade PT-PSDB.

Por mais que Marina Silva queira, no entanto, argumenta-se aqui que as eleições de 2010 vão consolidar o atual alinhamento político brasileiro, polarizado. Decisivo nessas eleições não serão candidatos, mas partidos e políticos, e PT e PSDB serão, sem dúvida alguma, as legendas que irão canalizar as forças em campo. Não à toa a candidata do Partido Verde gostaria de ver outro tipo de configuração dominante. Na atual, ela não terá chances.

Além disso, este texto também argumentará que a atual polarização da política brasileira é um pilar importante da atual prosperidade econômica e institucional do país. Sendo o PT ou o PSDB vitorioso nas eleições de outubro e novembro de 2010, a tônica será de continuidade. Afinal, na atual configuração política brasileira, polarizada entre esses dois partidos, ninguém quer ser a direita.

Polarização e continuidade

Um dos motivos pelos quais a polarização se tornará mais forte com as eleições de 2010 vem do fato que os dois pré-candidatos são ambos produtos de outras Presidências. José Serra é um político experiente com uma ampla e importante história de militância política em São Paulo. No entanto, ganhou visibilidade nacional apenas quando foi ministro da Saúde no governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Serra venceu a guerra política interna para sair candidato à sucessão de FHC, mas perdeu para Lula, na primeira vez em quatro tentativas que o candidato petista foi eleito presidente, em 2002.

Do outro lado, Dilma Russeff não tem experiência alguma em grandes eleições. Foi lançada ao topo depois que os escândalos de corrupção envolvendo grandes nomes do governo Lula, como José Dirceu e Antonio Palocci, deixaram um vazio de poder que foi preenchido pela ministra. A candidata petista cresce ao lado de Lula, atrás da enorme popularidade do presidente. Segundo o Datafolha, o governo Lula é o mais popular dos governos desde 1990: 73% dos entrevistados o vêem como bom ou muito bom. Dilma Rousseff tem em suas mãos a fortuna de ser a escolha do presidente na primeira vez, desde o retorno da democracia no Brasil, que ele estará fora do páreo.

Da mesma forma, algo bastante representativo da influência da polarização na política brasileira é a tentativa de transformar a campanha de 2010 em um plebiscito envolvendo os dois governos: Lula e FHC. Em novembro do ano passado, o recém-eleito presidente do PT, José Eduardo Dutra, afirmou: "A população vai comparar dois projetos que conhece: o da oposição, materializado nos 8 anos do governo FHC, e o nosso, materializado nos oito anos do governo Lula".

A estratégia repetida por diversas vezes desde o fim do ano passado não só reforça a polarização por meio do discurso político como o faz de um modo favorável ao PT. É claro que o fato de Lula não ter tido que lidar com a instabilidade crônica que a economia brasileira vivia há décadas antes do Plano Real lhe deu uma liberdade de governar que a administração anterior não teve. Não à toa, FHC respondeu em artigo recente, publicado na imprensa: "O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária distorce o ocorrido no governo do antecessor".

Além disso, outra razão que favorece a polarização atual da política brasileira é o caráter pragmático que se estabeleceu após a restauração do regime democrático. Por mais que o senso comum pense o contrário, não há dúvidas de que os 20 anos de democracia reforçaram os partidos, em detrimento do político carismático tradicional ou do "coronel" local. Como mostra uma alardeada pesquisa sobre a geografia eleitoral brasileira, qualquer candidato à Presidência deve lidar com pelo menos quatro "estruturas de poder": a classe média educada e urbana, os evangélicos, o populismo da periferia e as oligarquias regionais.

Lula, por exemplo, fez uma aliança com os evangélicos ao ter José Alencar como vice-presidente. Alencar, do Partido Republicano Brasileiro (PRB), é um político conservador que já se manifestou publicamente contra o homossexualismo – "é contrário à natureza humana" – e o casamento do mesmo sexo.

O atual presidente, que sempre foi popular na classe média intelectualizada, tem também ao seu lado a periferia, com seus programas sociais, e as oligarquias regionais, com o apoio de políticos como José Sarney.

Além disso, nas regiões mais pobres, programas sociais como o Bolsa Família transforma o poder local, substituindo o "coronel" pelo prefeito. Ao mesmo tempo, projetos desse tipo garantem votos na periferia. Novamente segundo o Datafolha, 40% daqueles que recebem o Bolsa Família têm a intenção de votar em Dilma Rousseff, contra 25% que pretendem votar em Serra. Todas essas estratégias pragmáticas que estiveram por trás da eleição de Lula em 2002 e 2006, e nos seus dois governos, serão novamente utilizadas na campanha de Dilma Rousseff.

No lado do PSDB, a chave estratégica do partido é o governador Aécio Neves. Após dois mandatos no governo de Minas Gerais, que lhe dá uma popularidade acima de 70% no estado, Aécio Neves se vê pressionado pelo partido a aceitar a Vice-Presidência. Ao lado do governador, Serra teria os votos do segundo maior colégio eleitoral do país, além daqueles do seu próprio estado. Além disso, a presença de Aécio Neves na chapa poderia reduzir a resistência a Serra, muitas vezes visto como paulista demais e arrogante. Como se não bastasse, para o PSDB, uma chapa com José Serra e Aécio Neves poderia garantir 16 anos na Presidência. Deixando a Vice-Presidência, o atual governador mineiro seria um candidato praticamente imbatível em 2018 e 2022, e não é à toa que o presidente Lula está tão empenhado nesta eleição. Está em jogo o legado do seu próprio governo.

Conclusões

Nesse sentido, não há dúvidas, as eleições de 2010 vão consolidar ainda mais a atual polarização da política brasileira. Como já foi afirmado, partidos e políticos serão mais decisivos que candidatos nos resultados de outubro e novembro. Ao mesmo tempo, nota-se que essa polarização é extremamente benéfica para o país e está sob a atual prosperidade material e institucional brasileira.

Em primeiro lugar, a polarização garante a presença de uma oposição forte e influente e a possibilidade de alternância de poder sem grandes rupturas. Com isso, reforça as instituições políticas e a continuidade.

Em termos gerais, os governos Lula e FHC não foram tão diferentes assim. Ambos sustentaram a estabilidade econômica e trabalharam em áreas sociais que estavam negligenciadas por décadas. Fernando Henrique Cardoso deu mais atenção à saúde e à educação básica. Lula, às universidades, ao Bolsa Família e à infra-estrutura.

Da mesma forma, Dilma Rousseff e José Serra também não são tão diferentes assim. Ambos são vistos como centralizadores que enaltecem suas capacidades de administrar. Se é possível dizer que o PT acredita mais (e o PSDB, menos) no Estado como solução para problemas sociais e econômicos, e que os dois partidos têm certamente visões bem diferentes para a política externa, nem FHC muito menos Serra são exemplos de políticos liberais, no sentido inglês da palavra. De fato, ambos poderiam ser considerados liberais nos Estados Unidos, onde um político desse tipo se apresenta como "de esquerda" e defensor moderado de uma presença atuante do Estado na sociedade.

Por mais que o PT gostaria que fosse, o PSDB não se caracteriza como um partido clássico de direita. Psdebistas são mais socialdemocratas que liberais e conservadores. Da mesma forma, a necessidade de compor alianças forçou o governo PT a caminhar mais para o centro. Nesse contexto, a polarização garante continuidade e transforma a centro-esquerda na posição política dominante no Brasil.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Quem escreverá nossa história?

O excelente Quem escreverá nossa história?, publicado recentemente no Brasil pela Companhia das Letras, conta a história dos arquivos secretos produzidos por judeus sobre a vida social no Gueto de Varsóvia. O autor, Samuel D. Kassow, professor no Trinity College, em Connecticut, nos Estados Unidos, apresenta o historiador judeu Emanuel Ringelblum, o homem que montou um verdadeiro exército de documentação da vida dos judeus no gueto, entre novembro de 1940 até sua morte, em março de 1944, fuzilado pelos alemães, e analisa a documentação deixada pelo Oyneg Shabes, o nome do arquivo criado por Ringelblum.

O arquivo produziu trabalhos sobre a mulher judia, o futuro dos judeus, a condição das crianças, a luta pela sobrevivência e reuniu relatos de refugiados e fugitivos dos campos nazistas que retornavam ao gueto. Com o tempo, no entanto, o Oyneg Shabes passou a atuar como um braço documental do movimento judaico de resistência, assumindo, como explica Samuel Kassow, novas prioridades e responsabilidades: "Documentar o programa de extermínio, fornecer material para a imprensa clandestina judaica e polonesa, transmitir a informação para fora da Polônia." Em 2 de junho de 1942, Ringelblum ouviu a BBC transmitir a noticia de que os alemães haviam assassinado 700 mil judeus poloneses com base em dois relatórios do Oyneg Shabes que chegaram a Londres. Naquele momento, o número era, na verdade, muito maior.

Uma resenha do livro será publicada em breve no caderno Prosa e Verso, de O Globo. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

International justice and Brazilian national aspirations


The many possibilities that identity studies generate to understand countries or cultures and their behavior at the international arena are one of the great things about the recent come back of subjectivity in the Social Sciences. In fact, there is no doubt that what we do and create says a lot about what we are and how we think about the world we live in, and vice-versa. In a Freudian sense, thinking about how we see the other and the unknown is pretty much a way to go deep into ourselves.


Hence, I argue here that the idea Brazilians have about the world was traditionally informed by the historical economic development model the country has put forward from 1930 to 1989, based on a nationalist ideology that has built a political consensus around the objectives pursued by successive governments during this period. In 1989, however, this framework suffered some changes with the internationalist turn and the end of the Cold War in Brazil, and the country’s practice concerning the international moved from a relative isolation to a compulsory participation.


The result of this historical path is the combination of a nationalist perspective of the world with the need to participate, a vision of the international as a fearful arena where the country should limitedly fight for its interests with a need to be part of the every day building of the international system. This mixture has produced a notion that allies the perception of an unfair international environment (constructed on unequal terms) with the Brazilian myth of working hard (and being victorious) against hash difficulties. 


In this sense, fighting for a fairer international politics is not only in the country’s national interest, as a middle power. Pursuing its national interests is also a way to create a fairer international environment, where middle (and smaller) powers could be heard. In addition, Brazil expects to grant the support of the weak assuming it represents them against the rigidities of the international order. In fact, the end of the Cold War in the country allied the concept of international justice with the Brazilian national aspirations for greatness. Due to all that, I will try to conclude here that the best way to convince Brazilian decision-makers, elites and and citizens of the need to cooperate internationally is to radically democratize the international institutions and framework.


 


What we do/how we see


Brazilian industrialization process started around the 1930s and was based on the need for breaking the chain that connected the country to the world as an agricultural exporter. It was an ideological rupture with the liberal arguments of free trade and productivity, as much as an embracement of the interventionist idea of a very strong state running a whole industrialization process for the country. From a nationalist perspective, the economic process put into practice could also break Brazil’s “dependency” from foreign production, and would place Brazil side by side with the industrialized nations, the great powers.


The economic development model and the nationalist ideology combined led to some very peculiar positions of the Brazilian foreign policy. Until 1989, Brazil was out of the most important international regimes concerning, for example, trade, nuclear proliferation and intellectual property. The country praised some “independency” related to the United States during the Cold War and fiercely competed against Argentina for the regional hegemony.


This historical path led to the 1980s debt crisis, a huge inflationary process, one of the worst income concentrations of the world and the terrible neglect of public services in social areas as education, health care, public security and access to justice, but it also has placed Brazil in the hall of the ten strongest economies of the globe. In addition, it consolidated the idea that the international arena should be a place for the country to act limitedly, or not to establish any commmitments that could negatively influence the economic development plan and the process of strengthening Brazilian relative position. Joining a nuclear regime, for example, as the Non-Proliferation Treaty, was perceived more as a limitation to progress than a pacifist policy. 


 


The end of the Cold War in Brazil


The Brazilian political, social and economic crises of the 1980s and the global changes during the last quarter of the 20th century – the fluctuation of the dollar, the raise of the international interest rates, the oil shocks, the economic globalization and the dismantle of the Soviet Union and the old East European regimes – contributed to the noteworthy ideological changes in Brazil. Hence, 1989 is a very special year. While communism was crumbling behind the Iron Curtain and social catastrophe was knocking on Brazilians’ doors, the country was experiencing the first democratic presidential elections since the military coup in 1964. Twenty-two candidates were running for president at that very moment, including the current president Luis Inácio Lula da Silva, and the elections took place in November (first round) and December (second round) of 1989. 


Unsurprisingly, the presidential campaign generated a political debate of gigantic proportions. The whole situation and history of the country was questioned. This was our “revolution”, our yellow and green revolution that should be perceived more as the end of the Cold War in the country than a byproduct of this process – in a way that opens the possibility for including Brazil in the comparative studies of this peculiar historical moment. After all, for example, both Brazil and the Soviet Union perceived their economies as technologically lagged and their relative position as deteriorating with the economic globalization process that they were not participating.


After 1989, Brazil changed radically its international profile – and this is, in my view, together with the democratization process, the seed for the widely praised current situation of the country. Brazil slowly commited itself to the trade, nuclear proliferation, the environment and intellectual property international regimes, even though sometimes in a limited or critical way. It opened itself for the international finance and radically diminished the direct role of the state in its domestic economy. A huge privatization process generated private business stars such as Embraer, the aeronautic exporter, and the giant of the mineral sector Vale do Rio Doce, now called simply Vale.


Among all these changes, one of the main notions this “revolution” has put in place was of “international participation”. Brazil could no longer be out of the political debate concerning the international regimes, as it could no longer be out of the globalization process. On the contrary, the country should participate in as many forums as possible, defending its interests and an exceptionalist behavior. At this very moment, the nationalist tradition and the need to participate created a mix of a realist fight for selfish interests with the need to have more voice in the system. This behaviour was deeply linked to the discourse in defense of the democratization of the decision making process at the international level, and the strategy adopted aimed at fulfilling Brazil's self interests as a middle power country as well as served as a mechanism to gain foreign support from the numerous nations in similar positions or those with even more limited capabilities.  


Brazil’s role in the WTO debates concerning the Doha Round, for example, is very representative of this point. As the leader of the developing world at the G20 forum, Brazil represents its own interests by calling for a wider liberalization of the international agriculture market and the end of the subsidies practices. At the same time, advocates to the great powers for a fairer trade system, in which less developed countries could also profit from international commerce.


The plea for a permanent seat at the United Nations Security Council follows the same logic, and also the country’s position concerning global environmental rules and intellectual property – as in the breaking of patents of HIV medicines, for example. All of these moves ally Brazilian interests with the intention to fracture what is seen as an elitist framework of international politics and economics. Hence, wealthy and power nations have to do their material and political sacrifices for the world to become fairer and more equal. Even the timid and controversial defense of Iran’s nuclear program fits this model, since the issue is sensible for the Brazilian decision makers and is perceived as an intervention of the great powers in a middle power national project.


 


Conclusion


In conclusion, my argument is that Brazil’s historical path led the country to a perception of the international environment as an unfair arena in which one should work hard and struggle for its interests and survival, and that this same struggle is perceived by Brazilians as a way to build a fairer and better world. Curiously, this representation fits very well into the characters presented at the most famous contemporary Brazilian movies, praised particularly in Europe, as Central do Brasil and Cidade de Deus.


The only way that the Brazilian decision-makers and political elite could favor a more cooperative behavior for the country at the international realm would be through a radical transformation of the international institutional framework in a way that the global political environment could be perceived as a more democratic arena. This would be, for sure, shared by a public opinion used to see the world as a very unfair place where the rich and great powers are always trying to gain against the weaker peoples. 


The materialization of this idea would be, for example, to accomplish the reform of the UN Security Council, new efforts from the United States and Europe concerning the developmental agenda of the Doha Round, new postures within the environmental debate that take into account the position of late developers and, the unlikely and radically, the global nuclear disarmament. Unfortunately, in my view, this is the only way nationalism can be defeated in Brazil in favor of globalism, or the important Brazilian cooperation in global issues. 


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Afinal, quem é Barack Obama?

"Neither a cold-blooded realist nor a bleeding-heart idealist". Em uma excelente análise publicada na última edição da Foreign Policy, Walter Russell Mead decifra o enigma Barack Obama. Por meio de seu modelo de quatro representações da política externa americana - jeffersoniana, hamiltoniana, wilsoniana e jacksoniana - expostas por ele no excelente Special Providence, publicado pela Routledge, em 2002, nos Estados Unidos, Mead retratou o atual presidente americano como um jeffersoniano clássico. O autor aborda a situação e os dilemas enfrentados por Barack Obama e expõe o conflito entre as mentalidades wilsoniana e jeffersoniana, tradicionalmente dominantes no Partido Democrata. Segundo Mead, o embate tende a assombrar os quatro ou oito anos da política externa de Barack Obama, e o fantasma é nada menos que outro presidente democrata: Jimmy Carter, que ficou apenas um mandato na Casa Branca.
Como em trabalhos anteriores, Mead acerta na mosca ao buscar na tradição política americana o caminho para o entendimento da história, incluindo a presente. Tentei o mesmo em um texto publicado na revista Contexto Internacional, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, com base em dissertação de mestrado defendida na instituição. No artigo intitulado Idéias e Política Externa Americana procurei mostrar que os primeiros passos para valer dos Estados Unidos no ambiente internacional, vale dizer da intervenção na Cuba espanhola, em 1898, até a entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial em 1914, foram em geral informados por ideias tradicionais da política americana como "missão", "missão única", "auto-governância", "a questão do inimigo" e até mesmo o "isolamento", noções presentes no pensamento dos Founding Fathers daquela nação e reinterpretadas ou "reinventadas" no tempo histórico. É interessante perceber que, assim, a política externa americana pode ser vista como um prolongamento da própria Revolução Americana de 1776.
  No artigo da Foreign Policy, Mead - que tem publicado no Brasil, pela Zahar, o ótimo Poder, Terror, Paz e Guerra, com prefácio e revisão de minha autoria - afirma que os presidentes americanos enxergam o mundo normalmente por meio do pensamento e da prática de quatro grandes políticos da história dos Estados Unidos: Alexander Hamilton, Woodrow Wilson, Thomas Jefferson e Andrew Jackson.
  Os hamiltonianos têm por base um caráter mais realista, defendem governos fortes que apoiem os interesses econômicos dos Estados Unidos no ambiente internacional. Wilsonianos gostam de promover a democracia e os direitos humanos no planeta. Os jacksonianos são os mais belicosos. Como bem retratou Mead: "Jacksonians are today's Fox News watchers. They are populists suspicious of Hamiltonian business links, Wilsonian do-gooding, and Jeffersonian weakness."
Jeffersonianos, como Barack Obama segundo Walter Russell Mead, são partidários da vida simples, de governos pequenos. Não gostam das máquinas públicas de guerra, de intervenções exageradas e muitos compromissos internacionais. Acham que a melhor política externa dos Estados Unidos é servir como exemplo para outras nações, construindo uma vida social justa, pacífica e livre. Os camponeses de A vila, de M. Night Shyamalan, são jeffersonianos típicos. Bem como foi a luta de Mark Twain contra a ocupação americana das Filipinas no final do século XIX, muito bem retratada em seu livro Patriotas e Traidores, publicado no Brasil pela Fundação Perseu Abramo.
Republicanos moderados tendem a ser hamiltonianos, os mais conservadores como Sarah Palin, jacksonianos. Mas George W. Bush, para Mead, tentou unir jacksonianos e wilsonianos. Da mesma forma, para o autor, Henry Kissinger e Richard Nixon tiveram muitos momentos jeffersonianos. Bill Clinton foi hamiltoniano e wilsoniano.
George W. Bush, de fato, tentou aliar jacksonianismo e wilsonianismo. Dizer que foi apenas jacksoniano é crer que o ex-presidente acreditava que havia armas de destruição de massa no Iraque quando a invasão, de fato, nunca teve esse objetivo estratégico, mas sim a transformação (wilsoniana) futura de um ambiente hostil em uma região de democracias e livre mercado. A última saída da insegurança, transformar o mundo, o desconhecido, em si mesmo.
Na verdade, é difícil nos Estados Unidos fugir do wilsonianismo e Woodrow Wilson foi o primeiro presidente que levou os americanos a uma guerra na Europa, coisa que Washington evitou durante a reação conservadora no velho continente à Revolução Francesa de 1789. Ou seja, não há conflito entre wilsonianismo e a belicosidade jacksoniana e, como certa vez me disse Stephen Rabe, historiador da Universidade do Texas, Woodrow Wilson é a quintessência do norte-americanismo. Nesse sentido, ao meu ver, George Bush de fato aliou wilsonianismo e jacksonianismo. O que houve foi que tal estratégia se mostrou um retumbante fracasso.
Com relação a Nixon e Kissinger, tema do sensacional livro homônimo de Robert Dallek, também publicado no Brasil pela Zahar, é difícil crer que dois personagens tão apaixonados pela geopolítica, ambos com pretensões grandiosas de alcançar a paz mundial, possam ser caracterizados como jeffersonianos. Nesse ponto, Mead parece tentar de alguma forma livrar a barra das atrocidades que Richard Nixon e Henry Kissinger cometeram, no comando da Casa Branca, como o bombardeio do Natal.
Sobre Barack Obama, o atual presidente é um histórico opositor da Guerra do Iraque. Dessa maneira, Obama conseguiu reunir em sua volta os elementos do Partido Democrata ligados às questões de política externa que mais se opuseram ao conflito e mais se horrorizaram com as práticas do seu antessessor.
"Obama made opposition to the Iraq war a centerpiece of his eloquent campaign, drawing on arguments that echoed U.S. anti-war movements all the way back to Henry David Thoreau's opposition to the Mexican-American War", escreveu Mead. 
Segundo o autor, como Jimmy Carter nos anos 1970, Obama vem do velho jeffersonianismo do Partido Democrata. O objetivo de sua política externa, assim, é o de reduzir os custos e riscos internacionais dos Estados Unidos, limitando os compromissos de Washington ao mínimo possível.
"He is a believer in the notion that the United States can best spread democracy and support peace by becoming an example of democracy at home and moderation abroad", afirma Walter Russell Mead.
Como explica o autor, jeffersonianos desse tipo acreditam que o aumento dos compromissos externos de uma nação são uma ameaça ao regime democrático. Orçamentos militares estratosféricos, como o norte-americano atual, desvia recursos que deveriam estar sendo empregados em prol da prosperidade e da justiça social interna; relações próximas com governos corruptos e tirânicos envolvem os Estados Unidos em alianças sujas e cínicas; questões de segurança nacional ameaçam as liberdades civis e geram lobbies militaristas de grandes companhias atrás dos contratos com as agências de Defesa. É nesse sentido a ênfase de Obama nos temas internos, como a propagada reforma no sistema de saúde.
  Com isso, são três os desafios que o jeffersonianismo de Obama terá pela frente: 1) a real capacidade de desengajamento dos Estados Unidos em um contexto internacionalizado como o atual; 2) não demonstrar fraqueza, tanto para o ambiente interno quanto para o externo; e 3) o lado wilsoniano do presidente e do Partido Democrata.
"It is hard to reconcile the transcendent Wilsonian vision of America's future with a foreign policy based on dirty compromises with nasty regimes. If the government should use its power and resources to help the poor and the victims of injustice at home, shouldn't it do something when people overseas face extreme injustice and extreme peril?", pergunta Mead. O governo Barack Obama não pode facilmente abandonar a agenda dos direitos humanos, por exemplo. O perigo é estar indeciso em meio ao sóbrio e limitado realismo de Jefferson e o caráter transformador missionário americano de Woodrow Wilson.
Não à toa, Walter Russell Mead lembra de Carter. Um dos créditos mais infelizes que a Presidência Jimmy Carter ganhou foi o de possibilitar a Revolução Islâmica no Irã, em 1979. Para terminar, o autor lembra do célebre Ascensão e Queda das Grandes Potências, o clássico de Paul Kennedy. Jeffersonianos como Barack Obama são os melhores para evitar o que Paul Kennedy chamou de imperial overstrecht. "If Obama's foreign policy collapses, it will be even more difficult for future presidents to chart a prudent and cautious course through the rough seas ahead".

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Frost/Nixon e Dallek


Chegou às lojas brasileiras o DVD do sensacional Frost/Nixon, de Ron Howard. O filme tem por base a peça do escritor britânico Peter Morgan sobre as entrevistas que Richard Nixon concedeu ao jornalista, também britânico, David Frost, em 1977. As entrevistas foram transmitidas pela televisão americana divididas em quatro programas. No último, dedicado ao caso Watergate, Nixon admite pela primeira vez desde a renúncia que teve uma participação condenável no caso. Mais que isso, expõe claramente sua filosofia de poder. "When the president does it, that means that it is not illegal", chega a afirmar.

O primeiro episódio das entrevistas teve uma audiência de 45 milhões de telespectadores. Supostamente, nenhuma outra entrevista política jamais teve tanta audiência. Nos EUA, há também o DVD das entrevistas, como foram ao ar. Para acompanhar, vale a pena ter ao lado o sensacional Nixon and Kissinger de Robert Dallek, lançado no Brasil pela Zahar ano passado. Com edição, notas e revisão minhas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Nada de internet, a revolução vem da TV


Uma excelente análise de Charles Kenny publicada na última edição impressa da revista Foreign Policy sugere que não será a internet o motor tecnológico transformador da realidade social global nas próximas décadas, mas a televisão. Segundo o autor, a disseminação global da televisão acompanhada da proliferação digital de canais têm o potencial de modificar o comportamento das mulheres com relação à taxa de natalidade, tornar mais difícil a corrupção política e diminuir a incidência de guerras no planeta.

Como mostra Kenny, em 2007 havia mais de uma televisão para cada quatro pessoas no planeta. Mais de um bilhão de casas no mundo tinham o aparelho naquele ano. Mas outros 150 milhões de lares o possuirão até 2013. Hoje, metade das famílias indianas tem TV, em relação ao um terço de 2001. No Brasil, o índice atual é de mais de 75%. Em comparação, apenas 7% dos indianos e um terço dos brasileiros têm acesso à internet.

Além disso, há uma explosão da escolha em andamento. Em 2013, metade das televisões do mundo estarão recebendo sinal digital, o que significa mais canais. De fato, quase dois terços dos lares na Índia com TV já possuem canais por assinatura. Nos Estados Unidos de hoje, a média de canais por lar chega a 119.

Com relação à liberdade da mulher, Kenny cita pesquisas que tratam da realidade brasileira. “Em um país onde o divórcio só foi legalizado em 1977, quase um quinto das personagens femininas em novelas da Globo são divorciadas. E um quarto das mesmas são infiéis. Além disso, 72% das personagens femininas nas novelas não têm filhos e apenas 7% têm mais de uma criança. Em 1970, a taxa de natalidade média da mulher brasileira era seis vezes maior. Nesse sentido, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, assistir novelas da Globo têm o mesmo impacto, no que diz respeito à taxa de natalidade e nas áreas mais pobres, que dois anos a mais de educação.

A influência positiva nesse campo, no entanto, é contraposta por Charles Kenny quando o assunto é política. Com baixíssima concorrência, a Globo tem poder para controlar eleições, como a de 1989. Segundo pesquisa de Taylor Boas, as pessoas que assistiam televisão freqüentemente em 1989 tiveram 13% mais chance de votar em Fernando Collor do que aquelas que se mantinham distantes do aparelho. “Em um país rico em escolhas, como os Estados Unidos, não é possível identificar qualquer padrão entre horas de televisão e propensão para votar”, afirma Kenny. De fato, a Globo hoje gera uma armadilha de linguagem à política brasileira, absurdamente maléfica. Em especial no Rio de Janeiro, onde o jornal impresso da empresa também é o dominante.

Com relação à paz mundial, o autor afirma que a televisão reforça o cosmopolitismo e o senso de humanidade, fazendo com que as pessoas sejam mais sensíveis à guerra. Nos Estados Unidos, um minuto a mais de cobertura sobre o tsunami na Ásia, por exemplo, gerava 13% de aumento nas doações para os atingidos.

“Ver televisão expõe as pessoas a novas idéias e a povos diferentes. Com isso, surgem grandes oportunidades, a tendência à igualdade se fortalece e o mundo se torna mais inteligível”, afirma Charles Kenny. 

Alguém duvida?