Segundo o autor, a disciplina de Relações Internacionais não descreve a prática das relações internacionais, mas a constitui.
Em uma parceria da Editora Apicuri com a Editora PUC-Rio, acaba de sair no Brasil um clássico das Relações Internacionais. Lançado pela primeira vez 20 anos atrás, em 1993, Inside-Outside: Relações Internacionais como teoria política, de R.B.J. Walker, talvez seja, junto com Social Theory of International Politics, de Alexander Wendt, de 1999, o grande marco na chegada das perspectivas subjetivistas na área.
O argumento central do livro é o de que a disciplina de Relações Internacionais não descreve a prática das relações internacionais, mas a constitui. Para o autor, um aspecto central desse poder constitutivo é a insistência do campo no conceito de soberania. Segundo Walker, tanto as Relações Internacionais quanto sua ênfase na soberania são constructos, "ficções". Em sua visão, a soberania não é mais que uma solução particular espaço-temporal da modernidade nascente para o dilema mais profundo e permanente entre particularidade e universalidade, e o conceito se torna fundamental para as relações internacionais (prática) senão pelo próprio discurso das Relações Internacionais (disciplina).
Como afirma uma resenha do livro, o constructo espaço-temporal "soberania do Estado", apesar de se manter firme ao menos nos últimos dois séculos, não necessariamente se adequa continuamente na história como resposta aos dilemas complexos e mutantes da política global. No momento de transição entre o fim do feudalismo e o início da Era Moderna, a soberania do Estado pode ter sido a resposta, mas isso não significa necessariamente sua adequação perene, uma noção de imutabilidade que, de fato, é reforçada pelo discurso teórico.
Nesse sentido, em tempos nos quais a Era Moderna dá lugar a outras formas de cultura político-econômica global, outras soluções espaço-temporais podem ser necessárias. Em tempos de velocidade e aceleração, nos quais o espaço é comprimido e fronteiras se tornam mais e mais insignificantes, um constructo espaço-temporal que não leve esses fatores em conta, como é o caso da soberania, pode estar fadado a se tornar irrelevante.
Apesar de fundamentalmente teórico - e epistemologicamente antipositivista -, Walker não se furta a analisar a política internacional contemporânea. Em uma entrevista que deu ao Portal PUC-Rio Digital, em dezembro de 2010, o professor da Universidade de Victoria, no Canadá, e do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, questionou a interpretação corrente relativa a uma multipolaridade benéfica à vida no globo e não poupou críticas à política externa brasileira nesse debate.
"Preocupa o argumento de que estamos entrando supostamente numa era positiva, multipolar, quando a multipolaridade em questão é somente uma imitação, uma emulação dos velhos nacionalismos que pressionam de cima para baixo, supostamente calcados no argumento da elevação do padrão de vida nacional. Historicamente essa é uma experiência trágica e dificilmente será positiva no futuro. Mas se vamos tratar de multipolaridade, melhor que pensar nos novos pólos que deveriam fazer parte do Conselho de Segurança seria refletir sobre o próprio conceito de polaridade. Quem sabe pensar mais em termos de pontos, de cidades, lugares e regiões onde formas de poder que se expressam por meio de redes parecem convergir. Na verdade, o conceito de multipolaridade é bastante útil, mas não se pensado como no século XIX. Seria preciso pensar nos circuitos financeiros ou produtivos contemporâneos, nas redes de saber e de pensamento, na posição das cidades, nas redes universitárias, nas redes construídas pelos institutos de pesquisa, como exemplos de um fenômeno relativamente novo por meio do qual o poder é articulado em rede e se acumula em locais onde essas redes convergem. É nesse sentido que deveríamos prestar atenção ao pluralismo. O plural, por si só, não é algo necessariamente positivo. Nesse terreno, está claro, há necessariamente uma mudança. No entanto, é preciso ter muita atenção sobre como o plural está sendo pensando. Por um lado, pode-se fazer muita coisa interessante com o termo, em prol do entendimento de novas formas de distribuição de poder e da autoridade. Por outro, o discurso predominante sobre o tema reproduz formas muito antigas e perigosas da velha política de poder bismarkiana. Nesse ponto em particular, a contribuição da política externa brasileira para o sistema internacional é, no mínimo, discutível. O que faz ou fez nada mais é que uma imitação da ação internacional da Alemanha de Bismarck".
quinta-feira, 13 de junho de 2013
domingo, 9 de junho de 2013
O inferno são os outros: mídia, clientelismo e corrupção
Trabalho de Afonso de Albuquerque e Pâmela Araújo Pinto, ambos da Universidade Federal Fluminense (UFF), foi escolhido o melhor apresentado no GT de Comunicação e Política da 22o Compós.
O texto enfoca o modo como os conceitos de clientelismo e corrupção são empregados pela bibliografia relativa à Comunicação Política. Sustenta que, mais do que descrever fenômenos concretos e empiricamente identificáveis, os conceitos são utilizados de maneira adjetiva, como um elemento que aponta a incapacidade de determinadas sociedades em satisfazer parâmetros ideais que supostamente seriam satisfeitos por outras. Sugere ainda que este modelo argumentativo é usado não apenas nos estudos internacionais produzidos sobre o tema, mas é replicado nas análises produzidas no Brasil sobre a chamada “mídia regional”.
domingo, 2 de junho de 2013
Pesquisa traça perfil do parlamentar no Twitter
Segundo análise de Jamil Marques e Jackson de Aquino, ambos da Universidade Federal do Ceará, um congressista relativamente jovem, com alta votação, early adopter das mídias digitais e integrante de um partido de esquerda é aquele que apresenta um perfil de uso mais intenso do microblog.
"Representação parlamentar no Twitter: Uma abordagem quantitativa", de Francisco Paulo Jamil Almeida Marques e Jackson Alves de Aquino, será apresentado no GT de Comunicação e Política da 22o Compós. O encontro anual da Associação dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação será realizado este ano na Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, entre os dias 4 e 7 de junho.
Além desse ponto, o trabalho levanta outras questões importantes. Entre outras coisas, por exemplo, os autores lembram que os estudos no campo realizados até o momento – ainda que esperançosos de uma interação mais intensa entre representantes e representados – mostram que o uso do Twitter tem sido limitado pelos representantes à construção de imagens públicas. A ênfase no marketing pessoal, e não no engajamento dos usuários, é que, infelizmente, tem levado os representantes a assumir os riscos de se expor no microblog.
Dessa forma, afirmam os autores, os parlamentares têm feito um uso cauteloso das mídias digitais. Por um lado, o acompanhamento cotidiano de deputados que utilizam o Twitter permite perceber que tal ferramenta tem sido empregada na mobilização de grupos de apoio, com o intuito de sensibilizar para determinados projetos e causas. Por outro, há indícios de que os agentes do campo político estão sujeitos à crítica permanente e à possibilidade de serem mal compreendidos em seu discurso. "Um tweet mal redigido em um momento delicado reverbera na cobertura da imprensa, repercute junto aos cidadãos", afirma a pesquisa.
Com isso, deve-se ter em mente, segundo o estudo, que a utilização das ferramentas digitais não necessariamente significa maior interatividade do político com a esfera civil. De qualquer modo, para os autores, a tendência é a de que representantes e candidatos com necessidade de alcançar eleitorados mais amplos utilizem as novas mídias de modo mais frequente, ao menos em um contexto de "disputa pela construção e imposição de imagens públicas".
Dessa forma, afirmam os autores, os parlamentares têm feito um uso cauteloso das mídias digitais. Por um lado, o acompanhamento cotidiano de deputados que utilizam o Twitter permite perceber que tal ferramenta tem sido empregada na mobilização de grupos de apoio, com o intuito de sensibilizar para determinados projetos e causas. Por outro, há indícios de que os agentes do campo político estão sujeitos à crítica permanente e à possibilidade de serem mal compreendidos em seu discurso. "Um tweet mal redigido em um momento delicado reverbera na cobertura da imprensa, repercute junto aos cidadãos", afirma a pesquisa.
Com isso, deve-se ter em mente, segundo o estudo, que a utilização das ferramentas digitais não necessariamente significa maior interatividade do político com a esfera civil. De qualquer modo, para os autores, a tendência é a de que representantes e candidatos com necessidade de alcançar eleitorados mais amplos utilizem as novas mídias de modo mais frequente, ao menos em um contexto de "disputa pela construção e imposição de imagens públicas".
sábado, 25 de maio de 2013
22o Compós
O XXII Encontro Anual dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós) foi realizado na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, de 4 a 7 de junho de 2013. Veja os trabalhos apresentados no GT de Comunicação e Política.
JORNALISMO E POLÍTICA EM PAUTA: Tensões entre interesses públicos e privados no debate sobre a criação da Empresa Brasil de Comunicação Edna Miola, Rousiley Celi Moreira Maia.
Insegurança, (re)partidarização e "fogo amigo": a economia política dos meios na Era Lula Fernando Lattman-Weltman; Viktor Chagas
A parte que me cabe nesse julgamento: a Folha de S. Paulo na cobertura ao processo do "mensalão"Flávia Millena Biroli Tokarski, Denise Mantovani
Representação parlamentar no Twitter: uma abordagem quantitativa
Francisco Paulo Jamil Almeida Marques, Jakson Alves de Aquino
Os discursos articulados da democracia (entre o econômico, o político e o social) Isabel Cristina F. Villela
As vozes gritadas na eleição 2010: o discurso direto na disputa presidencial
Lorena Marina dos Santos Miguel, João Feres Júnior, Eduardo de Figueiredo Santos Barbabela e Oliveira, Anaily Mafra, Ingrid Peregrini, Renata do Nascimento Silva
O inferno são os outros: mídia, clientelismo e corrupção
Pamela Araujo Pinto, Afonso de Albuquerque
Deslizes morais na cena midiática: reprodução da intolerância ou oportunidade para novas gramáticas morais? Regiane Lucas de Oliveira Garcêz, Danila Gentil Rodriguez Cal
Reportagens com denúncias na imprensa brasileira: análise de duas décadas da predileção por mostrar problemas Solano dos Santos Nascimento
QUEM ESTÁ NO CONTROLE? Um estudo sobre as entrevistas com os candidatos à Presidência da República transmitidas nos telejornais da Rede Globo durante as eleições de 2010 Wilson Gomes, Fernanda Soares Pereira
JORNALISMO E POLÍTICA EM PAUTA: Tensões entre interesses públicos e privados no debate sobre a criação da Empresa Brasil de Comunicação Edna Miola, Rousiley Celi Moreira Maia.
Insegurança, (re)partidarização e "fogo amigo": a economia política dos meios na Era Lula Fernando Lattman-Weltman; Viktor Chagas
A parte que me cabe nesse julgamento: a Folha de S. Paulo na cobertura ao processo do "mensalão"Flávia Millena Biroli Tokarski, Denise Mantovani
Representação parlamentar no Twitter: uma abordagem quantitativa
Francisco Paulo Jamil Almeida Marques, Jakson Alves de Aquino
Os discursos articulados da democracia (entre o econômico, o político e o social) Isabel Cristina F. Villela
As vozes gritadas na eleição 2010: o discurso direto na disputa presidencial
Lorena Marina dos Santos Miguel, João Feres Júnior, Eduardo de Figueiredo Santos Barbabela e Oliveira, Anaily Mafra, Ingrid Peregrini, Renata do Nascimento Silva
O inferno são os outros: mídia, clientelismo e corrupção
Pamela Araujo Pinto, Afonso de Albuquerque
Deslizes morais na cena midiática: reprodução da intolerância ou oportunidade para novas gramáticas morais? Regiane Lucas de Oliveira Garcêz, Danila Gentil Rodriguez Cal
Reportagens com denúncias na imprensa brasileira: análise de duas décadas da predileção por mostrar problemas Solano dos Santos Nascimento
QUEM ESTÁ NO CONTROLE? Um estudo sobre as entrevistas com os candidatos à Presidência da República transmitidas nos telejornais da Rede Globo durante as eleições de 2010 Wilson Gomes, Fernanda Soares Pereira
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Political Journeys II
Reflexões sobre o problema da representação política e as tecnologias digitais.
Um dos problemas mais comentados da teoria contemporânea da democracia é o da representação política. O tema é campo de inúmeras interpretações, dependentes, inclusive, do conceito de representação que se utiliza. Há representação quando se "fala por alguém", quando se "substitui alguém", quando se "atua no lugar de alguém", quando se "atua em nome de alguém", quando se "decide por alguém" etc. Há representação delegativa, deputativa, legal, participativa, responsiva, direta, formal, especial, substancial, simbólica, elitista, descritiva, que proporciona mediação política, relação diferenciada, interação, prestação de contas, autorização, seleção, dominação.
Quando a democracia talvez se encontre no seu melhor momento, parece haver, entre outros problemas, uma crise (de legitimidade?) em torno da representação política nas democracias representativas contemporâneas, alimentada por questionamentos acerca da representatividade dos políticos em relação ao cidadão e à sociedade, que, no Brasil, na maior parte das vezes diz respeito ao Congresso Nacional. Pois, nesse contexto, a teoria faz a pergunta: se a representação é necessária – o que os participacionistas defensores da democracia direta não concordarão –, como fazer para que a representação seja, afinal, mais representativa?
Nesse contexto, um dos problemas mais notórios da democracia representativa brasileira, parece claro, é o descolamento entre o político e o cidadão, com a exceção dos momentos de campanha e eleição. Além disso, como se sugere, há muito pouca transparência e visibilidade pública do que acontece realmente dentro dos espaços (públicos) representativos, herméticos, provedores de informação e linguagem pouco acessíveis. Ao mesmo tempo, há um problema na comunicação pública quando a mídia de massa tradicional, sustentada na lógica comercial e algum problema estrutural, como a concentração, por exemplo, não parece cumprir o papel de mediação que lhe caberia.
Como se não bastasse, os partidos parecem também afastados do cidadão. Poucos se filiam, muitas vezes por não acreditar nos próprios partidos.No mesmo sentido, poucos participam, e as filiações parecem mais sindicatos profissionais de militantes que instituições público-partidárias.
O equívoco, no entanto, é achar que existe um sistema perfeito. A democracia não é e nunca será um sistema perfeito, mas é um sistema que permite às pessoas questionar e modificar o sistema.
No campo da representação, a internet tem sido apontada como um ambiente que apresentaria potencial de intensificar os processos representativos em regimes democráticos, mas é preciso ter em mente que a internet não vai resolver o problema da representação.
Um dos pontos centrais deste debate é o fato de que a representação política é um conceito metafísico, que na maior parte das vezes é pensado a partir de categorias metafísicas. Ora, noções como as de "interesse público", "opinião pública", "interesse do eleitorado", que fariam ligação, ao menos teoricamente, com o representante e suas ações, são conceitos generalizadores, violentos contra identidades, valores e interesses múltiplos que as sociedades contemporâneas abrigam. Talvez seja preciso hoje pensar realisticamente a representação política em um mundo pós-metafísico.
Isso significa refletir a partir do pressuposto de que as categorias não se fixam no tempo – o que foi, já não é mais – e que a representação política é um problema sem solução. O mais importante, na verdade, é que a conversa não seja interrompida.
Como pode contribuir a internet? Talvez a partir da multiplicação de vínculos comunicativos públicos, de preferência não-estatais, entre a sociedade e o representante, com produção de informação política cidadã não-comercial, a criação de espaços deliberativos e argumentativos, o incremento da transparência.
Com relação à visibilidade pública, que se mantém presa aos tradicionais grandes meios de massa, este pode ser um desafio, bem como a ecologica cognitiva da internet e suas limitações sobre a construção das subjetividades.
Um dos problemas mais comentados da teoria contemporânea da democracia é o da representação política. O tema é campo de inúmeras interpretações, dependentes, inclusive, do conceito de representação que se utiliza. Há representação quando se "fala por alguém", quando se "substitui alguém", quando se "atua no lugar de alguém", quando se "atua em nome de alguém", quando se "decide por alguém" etc. Há representação delegativa, deputativa, legal, participativa, responsiva, direta, formal, especial, substancial, simbólica, elitista, descritiva, que proporciona mediação política, relação diferenciada, interação, prestação de contas, autorização, seleção, dominação.
Quando a democracia talvez se encontre no seu melhor momento, parece haver, entre outros problemas, uma crise (de legitimidade?) em torno da representação política nas democracias representativas contemporâneas, alimentada por questionamentos acerca da representatividade dos políticos em relação ao cidadão e à sociedade, que, no Brasil, na maior parte das vezes diz respeito ao Congresso Nacional. Pois, nesse contexto, a teoria faz a pergunta: se a representação é necessária – o que os participacionistas defensores da democracia direta não concordarão –, como fazer para que a representação seja, afinal, mais representativa?
Nesse contexto, um dos problemas mais notórios da democracia representativa brasileira, parece claro, é o descolamento entre o político e o cidadão, com a exceção dos momentos de campanha e eleição. Além disso, como se sugere, há muito pouca transparência e visibilidade pública do que acontece realmente dentro dos espaços (públicos) representativos, herméticos, provedores de informação e linguagem pouco acessíveis. Ao mesmo tempo, há um problema na comunicação pública quando a mídia de massa tradicional, sustentada na lógica comercial e algum problema estrutural, como a concentração, por exemplo, não parece cumprir o papel de mediação que lhe caberia.
Como se não bastasse, os partidos parecem também afastados do cidadão. Poucos se filiam, muitas vezes por não acreditar nos próprios partidos.No mesmo sentido, poucos participam, e as filiações parecem mais sindicatos profissionais de militantes que instituições público-partidárias.
O equívoco, no entanto, é achar que existe um sistema perfeito. A democracia não é e nunca será um sistema perfeito, mas é um sistema que permite às pessoas questionar e modificar o sistema.
No campo da representação, a internet tem sido apontada como um ambiente que apresentaria potencial de intensificar os processos representativos em regimes democráticos, mas é preciso ter em mente que a internet não vai resolver o problema da representação.
Um dos pontos centrais deste debate é o fato de que a representação política é um conceito metafísico, que na maior parte das vezes é pensado a partir de categorias metafísicas. Ora, noções como as de "interesse público", "opinião pública", "interesse do eleitorado", que fariam ligação, ao menos teoricamente, com o representante e suas ações, são conceitos generalizadores, violentos contra identidades, valores e interesses múltiplos que as sociedades contemporâneas abrigam. Talvez seja preciso hoje pensar realisticamente a representação política em um mundo pós-metafísico.
Isso significa refletir a partir do pressuposto de que as categorias não se fixam no tempo – o que foi, já não é mais – e que a representação política é um problema sem solução. O mais importante, na verdade, é que a conversa não seja interrompida.
Como pode contribuir a internet? Talvez a partir da multiplicação de vínculos comunicativos públicos, de preferência não-estatais, entre a sociedade e o representante, com produção de informação política cidadã não-comercial, a criação de espaços deliberativos e argumentativos, o incremento da transparência.
Com relação à visibilidade pública, que se mantém presa aos tradicionais grandes meios de massa, este pode ser um desafio, bem como a ecologica cognitiva da internet e suas limitações sobre a construção das subjetividades.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Brasileiro enfrentará comércio estagnado no comando da OMC
Vitória na disputa pela direção-geral da Organização Mundial do Comércio traz a
oportunidade de o país refletir sobre sua inserção no mercado global.
A vitória confirmada na terça-feira (07/05) do diplomata brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo na eleição para o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio traz, entre outros benefícios, uma boa oportunidade para o país refletir sobre sua inserção no mercado global. Afinal, por que mesmo queremos um brasileiro no comando da OMC? Este talvez tenha sido um debate abafado pela cobertura da imprensa tradicionalmente ufanista em demasia nesses casos. Ora, entre as 10 maiores nações industriais do planeta mas com restrições históricas ao comércio internacional, o Brasil participa hoje com menos de 1,5% das exportações mundiais e menos de 1,3% das importações.
Mas não somente o contexto político cultural interno informa os desafios que Azevêdo terá pela frente. Como foi publicado recentemente neste Blog, relatório divulgado há poucas semans pela OMC mostra que o comércio internacional cresceu apenas 2% em 2012 e sua elevação deve ficar pouco acima dos 3% em 2013. Ambos os índices estão bem abaixo da média dos últimos 20 anos, 5.3%, e mais baixos ainda que o nível médio de crescimento das trocas internacionais no contexto pré-crise, de 6%, entre 1990 e 2008.
Segundo a organização, os índices apresentados mostram que os "problemas estruturais da economia internacional" revelados pela crise do período 2008/2009 ainda não foram atacados. Na verdade, seria difícil esperar números muito diferentes quando as grandes nações comerciais do planeta estão de fato em crise desde então, algumas delas, como o Japão, por exemplo, há ainda mais tempo. Não à toa, o primeiro-ministro Shinzo Abe lançou também recentemente mais uma tentativa do governo japonês, apelidada de "abenomics", de combater 15 anos de recessão e deflação na terceira maior economia do mundo, atrás apenas de China e Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, como sugere o relatório da OMC, incertezas renovadas sobre o euro tiveram impacto sobre as importações da União Europeia, que se apresentaram em queda em 2012 em relação ao ano anterior. A Europa, que votou em peso contra o brasileiro, é o maior centro exportador e importador do planeta. O comércio intra-europeu movimenta mais de US$ 4,5 trilhões e a UE como bloco ainda negocia externamente outros US$ 2 trilhões. Chineses vendem US$ 2 trilhões de dólares ao mundo e os americanos, US$ 1,5 trilhão. Os Estados Unidos compram mais de US$ 2 trilhões no mercado global, a China, em torno de US$ 1,7 trilhão.
Nesse sentido, não há dúvida de que a queda no comércio intra-europeu influenciou os resultados de 2012, como diz o relatório da OMC. Se tudo der certo, a expectativa é a de que o crescimento do PIB mundial e do comércio internacional volte à média dos últimos 20 anos somente no fim de 2014.
"Na medida em que a crise da economia global persiste, pressões protecionistas ganham força e podem se tornar eventualmente insuperáveis. A ameaça do protecionismo pode ser maior agora que em qualquer momento desde o início da crise", afirmou o atual diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, na ocasião da divulgação do relatório e em tom de despedida.
"Para nos prevenirmos de um ciclo autodestruidor de nacionalismo econômico, os países devem voltar suas atenções para o sistema multilateral de comércio. O comércio internacional deve ser motor do crescimento econômico e não termômetro da instabilidade global", ressaltou.
A vitória confirmada na terça-feira (07/05) do diplomata brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo na eleição para o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio traz, entre outros benefícios, uma boa oportunidade para o país refletir sobre sua inserção no mercado global. Afinal, por que mesmo queremos um brasileiro no comando da OMC? Este talvez tenha sido um debate abafado pela cobertura da imprensa tradicionalmente ufanista em demasia nesses casos. Ora, entre as 10 maiores nações industriais do planeta mas com restrições históricas ao comércio internacional, o Brasil participa hoje com menos de 1,5% das exportações mundiais e menos de 1,3% das importações.
Mas não somente o contexto político cultural interno informa os desafios que Azevêdo terá pela frente. Como foi publicado recentemente neste Blog, relatório divulgado há poucas semans pela OMC mostra que o comércio internacional cresceu apenas 2% em 2012 e sua elevação deve ficar pouco acima dos 3% em 2013. Ambos os índices estão bem abaixo da média dos últimos 20 anos, 5.3%, e mais baixos ainda que o nível médio de crescimento das trocas internacionais no contexto pré-crise, de 6%, entre 1990 e 2008.
Segundo a organização, os índices apresentados mostram que os "problemas estruturais da economia internacional" revelados pela crise do período 2008/2009 ainda não foram atacados. Na verdade, seria difícil esperar números muito diferentes quando as grandes nações comerciais do planeta estão de fato em crise desde então, algumas delas, como o Japão, por exemplo, há ainda mais tempo. Não à toa, o primeiro-ministro Shinzo Abe lançou também recentemente mais uma tentativa do governo japonês, apelidada de "abenomics", de combater 15 anos de recessão e deflação na terceira maior economia do mundo, atrás apenas de China e Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, como sugere o relatório da OMC, incertezas renovadas sobre o euro tiveram impacto sobre as importações da União Europeia, que se apresentaram em queda em 2012 em relação ao ano anterior. A Europa, que votou em peso contra o brasileiro, é o maior centro exportador e importador do planeta. O comércio intra-europeu movimenta mais de US$ 4,5 trilhões e a UE como bloco ainda negocia externamente outros US$ 2 trilhões. Chineses vendem US$ 2 trilhões de dólares ao mundo e os americanos, US$ 1,5 trilhão. Os Estados Unidos compram mais de US$ 2 trilhões no mercado global, a China, em torno de US$ 1,7 trilhão.
Nesse sentido, não há dúvida de que a queda no comércio intra-europeu influenciou os resultados de 2012, como diz o relatório da OMC. Se tudo der certo, a expectativa é a de que o crescimento do PIB mundial e do comércio internacional volte à média dos últimos 20 anos somente no fim de 2014.
"Na medida em que a crise da economia global persiste, pressões protecionistas ganham força e podem se tornar eventualmente insuperáveis. A ameaça do protecionismo pode ser maior agora que em qualquer momento desde o início da crise", afirmou o atual diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, na ocasião da divulgação do relatório e em tom de despedida.
"Para nos prevenirmos de um ciclo autodestruidor de nacionalismo econômico, os países devem voltar suas atenções para o sistema multilateral de comércio. O comércio internacional deve ser motor do crescimento econômico e não termômetro da instabilidade global", ressaltou.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Cidadania na era digital
Relatório divulgado
pelo Pew Research Center
mostra forte crescimento
no uso das redes sociais
para a atuação política
nos Estados Unidos. Além
disso, que a disparidade
entre mais e menos
educados na participação
se eleva no ambiente
online.
No último 25/04, o Pew Internet and American Life Project, ligado ao Pew Research Center, divulgou um relatório sobre o engajamento político "na era digital". Os resultados da pesquisa feita entre julho e agosto de 2012, nos Estados Unidos, sobre a participação política do cidadão americano nos 12 meses anteriores, mostram que a internet, em especial as redes sociais, tem sido cada vez mais utilizada para a atuação política. No entanto, mostram também que a exclusão digital será um dos grandes desafios dos regimes democráticos nas próximas décadas.
Segundo a pesquisa, houve um crescimento expressivo, nos Estados Unidos, da atividade política nas redes sociais entre 2008 e 2012. Em primeiro lugar, o número de usuários dessas ferramentas passou de 33% para 69% da população online americana (240 milhões de pessoas ou quase 80% da população total do país). Em 2008, 11% dos usuários (ou 3% da população adulta americana) disseram que utilizaram essas ferramentos para publicar algo relacionado à política. Em 2012, 28% (ou 17% da população adulta) disseram que publicaram links para reportagens ou artigos políticos e 33% (ou 19% da população adulta), que postaram outros tipos de conteúdo político nas redes.
Da mesma forma, em 2008, 12% dos usuários das redes (3% da população adulta) seguiam algum candidato político nesse ambiente. Em 2012 esse número chegou a 20% (12% da população adulta). Além disso, em 2008, 13% dos usuários (3% da população adulta) iniciaram ou se juntaram a algum grupo nas redes sociais que atuava em temas políticos ou sociais. Em 2012, a proporção foi de 21% dos usuários ou 12% da população adulta. Talvez ainda mais importante, 43% dos usuários das redes sociais disseram à pesquisa que decidiram se informar mais sobre um tema político ou social a partir do que leram nesses sites e 18% afirmaram que decidiram se envolver mais em algum tema político ou social depois que leram algo sobre esse tema nas redes sociais.
Segundo o relatório, 39% da população adulta americana ou 66% dos usuários das redes sociais fizeram algum tipo de atuação política nesse ambiente entre julho/agosto de 2011 e julho/agosto de 2012. Coisas como "gostar" ou promover material relacionado à tema político ou social postado por outros usuários (38% dos usuários das redes sociais ou 23% da população adulta), encorajar outras pessoas a votar (35% dos usuários ou 21% da população adulta), publicar seus próprios pensamentos ou comentários sobre assuntos políticos ou sociais (34% dos usuários ou 20% da população adulta), responder ou comentar alguma publicação sobre tema político ou social (33% dos usuários ou 19% da população adulta), incentivar outros a se engajar em tema político ou social (31% dos usuários ou 19% da população), publicar links para reportagens sobre temas políticos ou sociais (28% dos usuários ou 17% da população adulta), participar na rede de algum grupo envolvido em causa política ou social (21% dos usuários ou 12% da população adulta), seguir um político eleito ou candidato (20% dos usuários ou 12% da população adulta).
Em resumo, a pesquisa analisa o engajamento cidadão nos Estados Unidos a partir de quatro conclusões. A primeira afirma que 49% dos adultos entrevistados fizeram parte diretamente de um grupo cidadão ou de uma atividade cidadã nos 12 meses anteriores à sondagem, realizada em julho/agosto de 2012. A segunda, que 39% dos adultos entrevistados contactaram políticos eleitos ou administradores públicos ou se manifestaram em algum fórum público no mesmo período. A terceira sugere que 34% fizeram as mesmas ações mas por meio de plataformas e ferramentas digitais. A quarta, que 39% dos adultos entrevistados fizeram algum tipo de atividade política ou cidadã com a utilização específica das redes sociais.
Apesar do efeito democratizante da internet que consta do relatório, a pesquisa também mostra que atividades políticas continuam a ser em boa parte um privilégio de indivíduos com grau de escolaridade mais alto e em situação financeira melhor, no ambiente online ou não. No terreno das redes sociais, no entanto, a disparidade no que diz respeito à renda vem se apresentando mais modesta, mas aquela referente à escolaridade tem se mostrado mais grave que fora da internet.
Ou seja, a se confirmar a tendência de crescimento das atividades políticas online, vem aí, como já se imaginava, mais um problema para a democracia, a exclusão digital. Em especial, para a democracia nos países com baixos índices de escolaridade e pouca qualidade na formação, como o Brasil.
No último 25/04, o Pew Internet and American Life Project, ligado ao Pew Research Center, divulgou um relatório sobre o engajamento político "na era digital". Os resultados da pesquisa feita entre julho e agosto de 2012, nos Estados Unidos, sobre a participação política do cidadão americano nos 12 meses anteriores, mostram que a internet, em especial as redes sociais, tem sido cada vez mais utilizada para a atuação política. No entanto, mostram também que a exclusão digital será um dos grandes desafios dos regimes democráticos nas próximas décadas.
Segundo a pesquisa, houve um crescimento expressivo, nos Estados Unidos, da atividade política nas redes sociais entre 2008 e 2012. Em primeiro lugar, o número de usuários dessas ferramentas passou de 33% para 69% da população online americana (240 milhões de pessoas ou quase 80% da população total do país). Em 2008, 11% dos usuários (ou 3% da população adulta americana) disseram que utilizaram essas ferramentos para publicar algo relacionado à política. Em 2012, 28% (ou 17% da população adulta) disseram que publicaram links para reportagens ou artigos políticos e 33% (ou 19% da população adulta), que postaram outros tipos de conteúdo político nas redes.
Da mesma forma, em 2008, 12% dos usuários das redes (3% da população adulta) seguiam algum candidato político nesse ambiente. Em 2012 esse número chegou a 20% (12% da população adulta). Além disso, em 2008, 13% dos usuários (3% da população adulta) iniciaram ou se juntaram a algum grupo nas redes sociais que atuava em temas políticos ou sociais. Em 2012, a proporção foi de 21% dos usuários ou 12% da população adulta. Talvez ainda mais importante, 43% dos usuários das redes sociais disseram à pesquisa que decidiram se informar mais sobre um tema político ou social a partir do que leram nesses sites e 18% afirmaram que decidiram se envolver mais em algum tema político ou social depois que leram algo sobre esse tema nas redes sociais.
Segundo o relatório, 39% da população adulta americana ou 66% dos usuários das redes sociais fizeram algum tipo de atuação política nesse ambiente entre julho/agosto de 2011 e julho/agosto de 2012. Coisas como "gostar" ou promover material relacionado à tema político ou social postado por outros usuários (38% dos usuários das redes sociais ou 23% da população adulta), encorajar outras pessoas a votar (35% dos usuários ou 21% da população adulta), publicar seus próprios pensamentos ou comentários sobre assuntos políticos ou sociais (34% dos usuários ou 20% da população adulta), responder ou comentar alguma publicação sobre tema político ou social (33% dos usuários ou 19% da população adulta), incentivar outros a se engajar em tema político ou social (31% dos usuários ou 19% da população), publicar links para reportagens sobre temas políticos ou sociais (28% dos usuários ou 17% da população adulta), participar na rede de algum grupo envolvido em causa política ou social (21% dos usuários ou 12% da população adulta), seguir um político eleito ou candidato (20% dos usuários ou 12% da população adulta).
Em resumo, a pesquisa analisa o engajamento cidadão nos Estados Unidos a partir de quatro conclusões. A primeira afirma que 49% dos adultos entrevistados fizeram parte diretamente de um grupo cidadão ou de uma atividade cidadã nos 12 meses anteriores à sondagem, realizada em julho/agosto de 2012. A segunda, que 39% dos adultos entrevistados contactaram políticos eleitos ou administradores públicos ou se manifestaram em algum fórum público no mesmo período. A terceira sugere que 34% fizeram as mesmas ações mas por meio de plataformas e ferramentas digitais. A quarta, que 39% dos adultos entrevistados fizeram algum tipo de atividade política ou cidadã com a utilização específica das redes sociais.
Apesar do efeito democratizante da internet que consta do relatório, a pesquisa também mostra que atividades políticas continuam a ser em boa parte um privilégio de indivíduos com grau de escolaridade mais alto e em situação financeira melhor, no ambiente online ou não. No terreno das redes sociais, no entanto, a disparidade no que diz respeito à renda vem se apresentando mais modesta, mas aquela referente à escolaridade tem se mostrado mais grave que fora da internet.
Ou seja, a se confirmar a tendência de crescimento das atividades políticas online, vem aí, como já se imaginava, mais um problema para a democracia, a exclusão digital. Em especial, para a democracia nos países com baixos índices de escolaridade e pouca qualidade na formação, como o Brasil.
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